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Utilização prática de antimicrobianos no campo. Como melhorar o seu uso

Deverá reduzir-se a administração através da ração ao mínimo possível e substituí-la progressivamente pela administração na água de bebida e pela via intramuscular.

6ª feira 22 Dezembro 2017 (há 1 meses)

Os princípios da terapia antibiótica baseiam-se num triângulo terapêutico que inclui as relações entre a bactéria responsável pela infecção, o animal doente e o fármaco utilizado para tratar a infecção bacteriana (figura 1). A primeira pergunta que se tem que responder é se a terapia antimicrobiana é realmente necessária. Uma vez decidido o uso de um antimicrobiano, o objectivo da terapia é fornecer um fármaco efectivo para destruir os microrganismos e conseguir a cura clínica da infecção nos animais afectados. O objectivo fundamental da terapia antimicrobiana é fornecer uma concentração de fármaco efectiva no local da infecção durante o tempo suficiente para obter uma cura tanto clínica como bacteriológica, evitando ao mesmo tempo, tanto quanto possível, o aparecimento de efeitos indesejáveis (Lees, 2002). No caso dos suínos, os antimicrobianos que se utilizam são administrados, fundamentalmente, por via intramuscular (IM) ou oral (água e/ou ração). Ao nível de campo, podemos melhorar muito a administração de antimicrobianos se cumprimos os seguintes pontos:

No caso de antimicrobianos administrados por via intramuscular é essencial respeitar a dose que devemos administrar em cada vez (em mg/kg PV) bem como a frequência de administrações e a sua duração (cada X horas e que nº de dias) para poder cumprir correctamente a dose farmacológica a administrar recomendada na bula. Na prática, os maiores erros podem ser cometidos ao não estimar correctamente o peso dos animais a tratar. É bastante recomendável indicar ao suinicultor a quantidade exacta de medicamento a administrar (volume em ml) e a sua frequência de administração (uma só vez, ou 1 vez a cada X em X horas). Também podemos dividir a população de animais em grandes, médios e pequenos de tal modo que podemos ajustar o volume a aplicar de um modo mais preciso (por exemplo 2,5, 2 e 1,5 ml, respectivamente). Cumprindo estes pontos e seleccionando adequadamente a agulha (especialmente o comprimento) é muito provável que a dose de antimicrobiano esjeja correcta.

No caso de antimicrobianos administrados por via oral através da água de bebida também é essencial respeitar a dose farmacológica (expressa em mg/kg PV/dia). Ao se administrar o fármaco através da água de bebida é essencial conhecer a ingestão de água diária para ajustar a quantidade de fármaco que se deve colocar diariamente na água de bebida para atingir a dose farmacológica. No exemplo seguinte apresenta-se um caso prático que consiste em medicar a água de bebida com doxiciclina. A dose farmacológica é de 10 mg de doxiciclina/kg PV e dia e o produto comercial seleccionado tinha 100 mg de doxiciclina por ml de medicamento. No nosso exemplo, queriam medicar-se porcos de 80 kg de PV e estimou-se um consumo teórico de 7 l/porco/dia. A partir destes parâmetros, é necessário adicionar 2487 ml de produto medicamentoso por depósito completo (2176 litros). Contudo, os nossos consumos reais de água não foram estes, dependendo do dia de tratamento (tabela 1). No início do tratamento, os animais ingeriram menos água que a quantidade estimada (5 l em vez de 7 l). Portanto, ao não ter o consumo real de água, teríamos sub-doseado os animais, pelo menos, nos primeiros três dias de tratamento (tabela 1). Portanto, devemos fazer um grande exercício de formação ao nível da exploração para melhorar os tratamentos na água. É bastante habitual administrar uma quantidade constante de medicamento na água de bebida (“duas embalagens por mil litros”) sem ter em conta o consumo de água diário. A partir deste exemplo entende-se facilmente que é bastante usual sub-dosear os antimicrobianos em condições reais de campo (Callens et al, 2016).

Tabela 1. Exemplo do cálculo de medicação com doxiciclina na água de bebida de acordo com o consumo de água real ou estimado. Trata-se de porcos de 80 kg para os que se estima um consumo de água teórico de 7 l/dia. O depósito tem 2176 l. A dose farmacológica é de 10 mg de doxiciclina/kg e dia e a concentração do produto é de 100 mg de doxiciclina por ml de medicamento.

Consumo real (l/dia) Quantidade necessária de medicamento (ml) de acordo com o consumo real Quantidade de medicamento (ml) de acordo com o consumo estimado Desvio da quantidade de medicamento necessária relativamente à estimada
Dia 1: 5 3482 2487 40 %
Dia 2: 6 2901 2487 17 %
Dia 3: 6,4 2720 2487 9,4 %

Nos antimicrobianos administrados através da ração também se deve cumprir a dose farmacológica. Neste caso, deveria registar-se o consumo médio de ração por porco para ajustar a quantidade de fármaco que deve estar presente na ração quando se faça o pedido à fábrica de rações (expresso em mg fármaco/kg de ração final). Nas bulas costumam aparecer recomendações sobre a quantidade de medicamento (e fármaco) que deve estar presente na ração que se fornece aos animais mas é bastante aconselhável ajustá-lo da melhor maneira possível ao nosso caso em concreto. Em qualquer caso, é evidente que não podemos modificar a quantidade que está presente diariamente na ração se o consumo varia durante o tratamento, facto que é muito habitual. Agora entende-se facilmente que esta via de administração é a mais imprecisa no momento de ajustar a dose farmacológica (é habitual um sub-doseamento - Callens et al., 2016) e, por outro lado, é a que mais se utiliza com fins profilácticos.

Em conclusão, um dos pontos críticos para a optimização do consumo de antimicrobianos nos suínos deve-se basear na administração através da ração ao mínimo possível e substituí-la progressivamente pela sua gestão através da água de bebida e por via intramuscular seguindo as recomendações apresentadas anteriormente.

Antibióticos em suínos

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