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Expectativa no mercado do porco à espera da evolução da Peste na Alemanha e das suas negociações com a China

Em Portugal, a cotação da Bolsa do Porco manteve-se sem alterações na segunda quinzena de Setembro.

2 de Outubro de 2020

Após o aparecimento do primeiro foco de Peste Suína Africana num javali na Alemanha, no passado dia 10 de Setembro, sobre o qual já tive oportunidade de ter feito referência no meu anterior comentário de mercado e de terem aparecido mais 34 casos depois deste, o mercado Europeu do porco tem apresentado estabilidade, com manutenções na grande maioria dos mercados após alguns deles terem descido com significado após a declaração de Peste Suína Africana (PSA) na Alemanha, entre eles o próprio mercado alemão que foi o que apresentou a maior descida.

Em Portugal, a cotação da Bolsa do Porco manteve-se sem alterações na segunda quinzena de Setembro e já é o segundo ano consecutivo em que os porcos não descem no mês de Setembro, contrariando a tendência habitual dos anos anteriores em que as cotações desciam com muito significado em Setembro. O mercado continua equilibrado, não há porcos atrasados e há bastante fluidez na saída de porcos para abate, mais que não seja, para Espanha.

Na realidade, continuam a ir bastantes porcos nacionais para serem abatidos em Espanha o que revela duas coisas: Portugal tem preço para meter porcos nos matadouros espanhóis e aquele país, apesar de ser largamente excedentário na produção de porcos, necessita comprar porcos fora do seu território para poder satisfazer as necessidades de venda de carne para os seus clientes, principalmente fora do território da União Europeia.

Actualmente, e considerando algum aumento de pedidos de carne aos fornecedores espanhóis por parte dos mercado asiáticos, a Espanha começa a deparar-se com alguma falta de capacidade de frio para poder satisfazer o aumento destes pedidos e este poderá ser o estrangulamento com que o mercado espanhol se poderá deparar.

Nesta constante evolução e dinâmica do mercado internacional, e considerando a redução de pedidos de carne à Alemanha por parte da China, Coreia do Sul e Japão, só para citar estes 3 países que representaram 75% das exportações alemãs de carne de porco nos primeiros 6 meses de 2020– relembramos que a Alemanha exportou 1,5 milhões de toneladas de carne de porco e seus produtos para a China somente no 1º semestre de 2020 – implicaram o aumento de pedidos de carne à Espanha, à Dinamarca, à Holanda e a França, mas principalmente implicaram um aumento de pedidos aos Estados Unidos, ao Canadá e ao Brasil.

Nos Estados Unidos, em que houve o encerramento temporário de matadouros e salas de desmancha devido ao elevado número de trabalhadores infectados pela Covid-19 e que obrigou a uma forte descida da cotação dos porcos que atingiu o seu valor mais baixo em Julho passado - houve empresas de produção que se viram obrigadas a eutanasiar porcos e leitões devido aos preços baixos e à falta de soluções para o abate dos suínos - neste momento, e após terem aumentados os pedidos de carne por parte dos países que proibiram as importações desde a Alemanha, as cotações começaram a subir com algum significado.

Em conjunto com a Espanha, os Estados Unidos poderão ser o principal beneficiado com o aparecimento da PSA na Alemanha, até porque se não houver nada em contrário nas negociações bilaterais que têm decorrido entre Berlim e Pequim, somente 1 ano após o aparecimento do último foco de PSA é que a Alemanha terá autorização para poder enviar novamente carne de porco para aqueles países asiáticos.

São importantes estas negociações porque delas dependerá o futuro imediato e mais a longo prazo do mercado do porco europeu. Se houver acordo para que a China aceite a regionalização/zonificação da Alemanha – coisa que nunca ocorreu antes com nenhum outro país que tivesse tido casos de Peste – então o mercado europeu do porco poderá não sofrer grandes efeitos nefastos com o aparecimento da PSA na Alemanha. Caso contrário o mercado poderá ficar completamente desequilibrado com as consequentes descidas das cotações de todos os países da U.E.

Outro dado do mercado que não se deve descurar é que os grandes exportadores mundiais de carne de porco se vêem a braços com uma segunda vaga de Covid-19 e, se os casos positivos se multiplicarem e voltarem a afectar trabalhadores de matadouros e salas de desmancha, então as exportações para Países Terceiros poderão ver-se claramente afectadas se os chineses mantiverem o seu posicionamento de não quererem carne de unidades que tenham pessoas positivas à Covid-19,

Em Espanha a cotação desceu ligeiramente 0,004€/kg PV nesta quinzena (-0,005€/kg carcaça) para se fixar em 1,296€/kg PV (1,728€/kg carcaça). A oferta continua a ser inferior à procura, apesar de ter havido um feriado no final da quinzena passada. Os feriados costumam afectar negativamente o mercado quando há excesso de oferta de porcos, mas apesar de ter havido subida dos pesos (+500g aproximadamente), os porcos não são muitos e os produtores referem mesmo que, na sua opinião, as cotações deveriam subir. Pelo seu lado, os matadouros apontavam para uma nova ligeira descida de forma a que o mercado sentisse que há alguma tensão no mesmo enquanto não houver decisão da China relativamente à regionalização da Alemanha. Em todo o caso, o mercado da carne de porco em Espanha está sem grandes dificuldades de escoamento de carne, principalmente para Países Terceiros.

Na Alemanha a cotação, após a descida de 0,20€, manteve-se sem quaisquer alterações na segunda quinzena de Setembro em 1,27€/kg carcaça. Na Alemanha os produtores estão nervosos, não só porque a cotação é muito baixa, mas também porque se começam a abater menos porcos e estes começam a ficar retidos nas explorações com o consequente aumento do seu peso e dos custos de produção. Nestas últimas semanas os abates na Alemanha andam em cerca de 880 mil porcos por semana quando no ano passado, na mesma altura, andavam nos 950 mil, o que é uma diferença significativa. Em todo o caso, os pesos têm-se mantido nos 97,6kg, apesar destes atrasos nos abates de porcos. Irei continuar a acompanhar a situação alemã em permanência, já que este é o segundo maior mercado do porco da U.E. e que qualquer alteração tem enormes implicações no mercado do porco em toda a Europa.

Na Holanda a cotação baixou 0,13€/kg carcaça fixando-se em 1,34€/kg carcaça, tendo acompanhado, em parte, a descida do mercado alemão, que é um país com forte influência no mercado holandês. Com as dificuldades que existem para abater porcos na Alemanha, os holandeses têm maiores problemas em enviar porcos para serem abatidos no sei país vizinho e isso faz aumentar a oferta interna que os matadouros holandeses não têm capacidade de absorver. O peso dos porcos tem aumentado e a oferta também, mesmo de porco mais levas que são provenientes de explorações de ciclo fechado que engordaram o seu excedente de leitões em vez de os terem vendido, como é usual noutras altura, em função do baixo preço dos leitões. Agora, e como o preço dos leitões continua baixo, estes produtores querem vazar os parques de engorda para os voltarem a encher com os seus leitões e m excesso, e isso levou a uma sobre-oferta de porcos no mercado de abate. Em todos o caso, dentro de uns 3-4 meses voltaremos a ter o mesmo problema na Holanda, com a saída destes leitões como porcos de abate.

Na Bélgica a cotação desceu 0,09€/kg PV para os 0,87€/kg PV.

Na Dinamarca a cotação manteve-se em 1,38€/kg carcaça. Apesar da instabilidade do mercado europeu, este começa a recuperar lentamente. Na Dinamarca, os trabalhadores estão bem em termos de saúde e está a ser feito um grande esforço por parte dos matadouros para poder manter os abates em elevado nível e em utilizar toda a capacidade de congelação para poder satisfazer o forte aumento dos pedidos de carne de porco por parte da China e a manutenção dos pedidos por parte do Japão. Boas perspectivas, portanto.

Em França, a cotação desceu 0,007€/kg carcaça fixando-se em 1,379€/kg carcaça. Os pesos subiram 310g para 94,89kg (peso 10 gramas abaixo do peso da mesma semana de 2019). Há grande consonância de posições no mercado entre vendedores e compradores. OS abates são elevados e isso permite que as cotações não desçam, apesar das fortes descidas dos países vizinhos a Norte e a Leste.

A evolução dos casos de Peste Suína Africana na Alemanha e as negociações deste país com a China serão cruciais para o desenrolar do mercado europeu do porco nos próximos tempos. Aguardemos para ver quais os seus resultados.

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