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Trigo mole

Campo de trigo en Oostburg, Países Bajos. Foto de Hans Hillewaert.
Campo de trigo en Oostburg, Países Bajos. Foto de Hans Hillewaert.

Ficha técnica com o valor nutricional (comparação de tabelas), produção, comércio e estudos mais recentes sobre o trigo mole.

4ª feira 15 Maio 2019 (há 5 meses 1 dias)
gosto

Introdução

O trigo farinável hexaplóide ou trigo mole (Triticum aestivum) pertence à família das gramíneas, é uma herbácea monocotiledónea que se cultiva em todo o mundo sendo a principal área de cultivo a zona temperada do hemisfério norte. Por ser a variedade farinável utilizada para a panificação, é a mais cultivada, disponível e comummente utilizada na alimentação animal, ainda que, por vezes se encontre misturado com o trigo duro (Triticul durum), a variedade tretraplóide cultivada para a indústria da pasta e da sémea. Esta mistura pode induzir a variabilidade sobretudo no que aos conteúdos em fibra, proteína e energia se refere.

Grãos de trigo mole (Triticum aestivum). Foto de Forest & Kim Starr.
Grãos de trigo mole (Triticum aestivum). Foto de Forest & Kim Starr.

É composto, aproximadamente, por 2,5 % de gérmen, 15% de sémea (pericárpio e testa), e 82,5 % de endosperma (incluindo a aleurona). O trigo constitui uma das principais fontes de energia nas dietas para suíno, já que apresenta um conteúdo em amido de cerca de 59,5 % e é mais rico em proteína que outros cereais (10 - 12 %) como o milho (7,5 - 8 %) ou a cevada (9,5 - 11 %), facilitando a substituição do milho em dietas altas em energia e permitindo reduzir a incorporação de fontes de proteína (típica situação de dietas para leitões). Contudo, similar conteúdo em fibra, mas baixo conteúdo em lípidos (2 %) faz com que o trigo apresente um menor valor energético que o milho (EM/kg). Ainda que nos suínos seja menos relevante que na avicultura, a presença de pentosanos (4 - 5 %, entre eles os arabinoxilanos), que são cadeias de hidratos de carbono que aumentam a viscosidade da digesta, podem representar um problema sobretudo em animais jovens. O trigo mole é relativamente pobre em lisina (cerca de 2,9 % da proteína) mas devido ao seu maior conteúdo em proteína, o aporte total de lisina e de outros aminoácidos é superior a outros cereais tipicamente energéticos como o milho. Tal como ocorre noutros cereais de uso comum nos suínos, o trigo mole é pobre em minerais e vitaminas. Por último, o trigo possui uma actividade fitásica endógena não negligenciável quando se utiliza sob a forma de farinha, mas há que ter em conta que esta se neutraliza no processo de granulado. O trigo mole, basicamente melhorado devido ao seu conteúdo em amido e glúten (10 % de gluteínas na fracção do glúten) para optimizar os processos de panificação, confere às rações características reológicas de plasticidade e compactação que o tornam ideal para melhorar a qualidade do granulado e o rendimento do processo de granulação.

Produção e comércio

Nos gráficos apresentam-se os dados de produção e comércio do conjunto de trigos.

Produção

Figura 1. Evolução da produção de trigos (× 106 t) dos principais países produtores por campanhas. Fonte: FAS-USDA.
Figura 1. Evolução da produção de trigos (× 106 t) dos principais países produtores por campanhas. Fonte: FAS-USDA.

Figura 2. Produção percentual dos principais países produtores de trigos na campanha 2017/2018. Fonte: FAS-USDA
Figura 2. Produção percentual dos principais países produtores de trigos na campanha 2017/2018. Fonte: FAS-USDA

Comécio

Figura 3. Evolução das exportações de trigos (x 103 t) dos principais exportadores por campanhas. Fonte: FAS-USDA *Dados provisórios
Figura 3. Evolução das exportações de trigos (x 103 t) dos principais exportadores por campanhas. Fonte: FAS-USDA *Dados provisórios

Figura 4. Exportação percentual de trigos dos principais países exportadores na campanha 2017/2018. Fonte: FAS-USDA
Figura 4. Exportação percentual de trigos dos principais países exportadores na campanha 2017/2018. Fonte: FAS-USDA

Figura 5.Evolução das importações de trigos (x 103 t) dos principais exportadores por campanhas. Fonte: FAS-USDA *Dados provisórios
Figura 5.Evolução das importações de trigos (x 103 t) dos principais exportadores por campanhas. Fonte: FAS-USDA *Dados provisórios

Figura 6. Importação percentual de trigos dos principais países importadores na campanha 2017/2018. Fonte: FAS-USDA
Figura 6. Importação percentual de trigos dos principais países importadores na campanha 2017/2018. Fonte: FAS-USDA

Estudo comparativo dos valores nutricionais

Os sistemas utilizados na comparação são: FEDNA (Espanha), CVB (Holanda), INRA (França), NRC (EUA) e o do Brasil.

FEDNA1 CVB INRA NRC Brasil
MS (%) 88,7 - 89,7 85,8 86,8 86,38 87,5
Valor energético (kcal/kg)
Proteína bruta (%) 10,2 - 12,9 11,2 10,5 10,92 11,5
Extracto etéreo (%) 1,4 - 1,6 1,4 1,5 1,4 1,6
Fibra bruta (%) 2,3 - 2,4 2,3 2,2 - 2,4
Amido (%) 58,4 - 60,6 58,9 - 60,3 60,5 60,0 56,7
Açúcares (%) 1,5 2,7 2,4 - -
ED crescimento 3475 - 3570 - 3310 3450 3340
EM crescimento 3390 - 3470 - 3210 3376 3243
EN crescimento 2485 - 2500 2521 2510 2595 2498
EN porcas 2500 - 2540 2521 2540 2595 2556
Valor proteico
Digestibilidade proteína bruta (%) 86 - 87 81 84 - 86,4
Composição aminoácidos (% PB)
Lys 2,72 - 2,82 3,10 3,10 3,21 3,03
Met 1,55 - 1,61 1,80 1,70 2,01 1,75
Met + Cys 3,80 - 3,91 4,30 4,20 2,84 4,11
Thr 2.85 - 2,91 3,20 3,20 3,21 3,16
Trp 1,10 - 1,13 1,30 1,30 1,28 1,33
Ile 3,50 - 3,64 3,80 3,80 3,11 3,80
Val 4,25 - 4,36 4,80 4,70 4,30 4,65
Arg 4,55 - 4,83 5,30 5,30 4,76 5,13
Digestibilidade ileal standardizada (% PB)
Lys 84 84 81 82 82,2
Met 90 90 89 90 89,8
Met + Cys 89 90 90 90 90,5
Thr 85 86 83 85 82,6
Trp 88 88 88 88 87
Ile 90 90 89 90 88,8
Val 87 88 86 87 86,7
Arg 89 90 88 89 87,6
Minerais (%)
Ca 0,04 - 0,05 0,04 0,07 0,03 0,06
P 0,29 - 0,30 0,28 0,32 0,3 0,32
P fítico 0,19 - 0,20 0,18 0,14 0,2 0,22
P disponível 0,15 - - - 0,1
P digestível 0,1 0,08 0,1 0,17(*) 0,16(*)
Na 0,02 0,01 0,01 0,01 0,01
Cl 0,08 - 0,09 0,05 0,09 0,08 0,08
K 0,32 - 0,40 0,38 0,40 0,46 0,39
Mg 0,11 - 0,14 0,09 0,10 0,11 0,12

1Para o sistema de valorização FEDNA apresenta-se o intervalo de valores (mínimo e máximo) provenientes da integração das 4 classificações que este sistema de valorização considera, baseadas principalmente no conteúdo de proteína e a humidade (Trigo Mole Nacional com conteúdos de PB de 10,2%, 11,2% e 12,9% e Trigo Mole Inglês, em representação da importação de trigo proveniente de zonas com condições de cultivo similares ao Reino Unido e Bretanha).
(*) Valores sujeitos a dietas em farinha que contemplam actividade fitase endógena do trigo. Em dietas granuladas estes valores podem reduzir-se na ordem dos 30-35%.

Diferentemente das restantes tabelas, a FEDNA claramente distingue entre três qualidades de trigo mole classificadas em função do conteúdo de proteína e duas origens, que basicamente se diferenciam pelo grau de humidade. Os restantes, CVB, INRA e NRC consideram uma só qualidade de trigo mole com valores intermédios de proteína (10,5 - 11,2 %) salvo o BRASIL (11,5%), que se coloca num valor médio entre os valores médio e alto da FEDNA. Quanto ao grau de humidade, o valor proposto pela FEDNA para o trigo Europeu (Reino Unido e Bretanha) parece-se mais ao grau de humidade proposto pelo CVB, INRA, NRC e BRASIL. Existe uma ligeira correlação positiva entre o conteúdo em matéria seca e a proteína (r2 = 0,24) e uma notória correlação negativa (r2 = 0,67) entre o conteúdo em proteína e amido (com excepção do BRASIL que penaliza muito o conteúdo em amido).

Estas relações têm um impacto directo sobre a estimativa do valor da energia net (EN) já que a clara correlação positiva entre o conteúdo em amido e a EN é evidente (com excepção do NRC que estima uma EN muito alta para valores intermédios de amido comparado com os restantes sistemas de valorização, onde esta relação é mais directa e ocasionalmente não valoriza a fibra).

Deve-se destacar que, diferentemente dos restantes sistemas de valorização, o BRASIL dá valores mais altos de proteína (mais 11 % em relação ao valor da FEDNA baixo em proteína e maior humidade) e de gordura (mais 13 % que o valor da FEDNA para os trigos nacionais ainda que seja igual ao do trigo do Reino Unido), contudo o conteúdo em fibra é pouco variável. Os valores estimados para a energia pelos distintos sistemas são parecidos, com variações inferiores a 2,5%, com excepção do NRC que dá um valor claramente superior (até 5,2%). Em termos de EN, a variação interna que apresenta a FEDNA devido à segregação em função do conteúdo em proteína não é superior a 0,6%.

Em termos de aminoácidos totais, tomando como referência a lisina, e para o mesmo conteúdo de proteína (11,1 ± 1,3 %), pode-se observar que todos os sistemas de valorização comparados dão valores similares e são superiores aos da FEDNA. O INRA e o CVB apresentam um aumento de 10 % no conteúdo de lisina enquanto que no BRASIL é de 8 %. Mais extremo é o caso do NRC que apresenta um valor de lisina 13% superior. Os valores para os restantes aminoácidos totais são bastante proporcionais à lisina, apresentando-se como mais variáveis os aminoácidos sulfurados. O coeficiente de digestibilidade da lisina apresenta um intervalo entre 86 - 87 % (BRASIL e FEDNA), ficando num valor intermédio o INRA com 74 % e com um valor mais baixo o CVB.

Descobertas recentes

1. Determinação da composição química, do conteúdo em energia e da digestibilidade de aminoácidos em diferentes cultivares de trigo fornecidos a porcos em crescimento.
Em diferentes cultivares de trigo fornecidas a porcos em crescimento observaram-se diferenças significativas nos valores de ED, EM e digestibilidade aparente do tracto total da EB. Também houve diferenças na DIA e DIE da PB e AA indispensáveis. Em conclusão, a composição química, os conteúdos em energia e a maior digestibilidade de AA em diferentes cultivares de trigo variaram amplamente.

2. Degradação da fibra dietética no estômago, intestino delgado e intestino grosso de porcos em crescimento alimentados com dietas à base de milho ou trigo sem ou com xilanase microbiana.
As xilanases microbianas podem contribuir para a degradação da fibra e das dietas baseadas em trigo, em trigo + milho e em milho ao longo do tracto intestinal dos porcos. A suplementação com xilanasea "A" melhorou a concentração de ED e EM nas dietas dos intermediários de trigo-farinha de soja-trigo e a xilanase "B" melhorou a concentração de ED nas dietas baseadas em trigo e na concentração da ME na dieta de trigo-farinha de soja. Portanto, a suplementação com xilanases melhora a digestibilidade da fibra dietética no estômago e no intestino posterior e no estado energético dos porcos alimentados com dietas à base de trigo.

3. Aditividade da digestibilidade ileal aparente e estandartizada de aminoácidos, determinada por óxido crómico e dióxido de titânio em dietas mistas que contêm trigo e múltiplas fontes de proteínas fornecidas a porcos em crescimento.
Nas dietas baseadas em trigo combinado com diferentes fontes de proteínas, a previsão mais precisa da digestibilidade ileal de PB e AA consegui atingir-se utilizando DIE em vez de DIA em dietas mistas que contêm trigo, farinha de milho, farinha de carne e ossos e DDGS. A determinação de perda endógena, DIA e DIE de PB e AA não se viu afectada pelo tipo de marcador. Além disso, a aditividade de DIA e DIE de PB e dos AA mais indispensáveis em dietas mistas não se viu afectada pelo tipo de marcador.

4. Impacto das xilanases na microbiota intestinal de porcos em crescimento alimentados com dietas à base de milho ou trigo.
Os suplementos de xilanase nas dietas à base de trigo, reduziram a influência dos Bacteroidetes e promoveram os taxões principais, a maioria dos quais pertenciam ao filo Firmicutes. Para maximizar a eficácia da suplementação com xilanase, sugeriu-se que a xilanase originada a partir de Bacillus subtilis foi mais efectiva quando se aplicou a dietas baseadas em trigo, enquanto que a xilanase originada de Fusarium verticillioides foi mais benéfica quando se aplicou a dietas baseadas em milho.

5. Conteúdo energético e digestibilidade de nutrientes de dietas que contêm cevada ou trigo fermentados com Lactobacillus fornecidas a porcos desmamados.
O conteúdo de energia e a digestibilidade aparente do tracto total (ATTD) dos nutrientes das dietas que contêm cevada ou trigo fermentados com Lactobacillus fornecidas a porcos desmamados podem ser substituídos benéficamente por trigo não fermentado, melhorando o ATTD de nutrientes e energia, a retenção de azoto e o conteúdo energético. Além disso, é preferível o hetero-inóculo ao homo-inóculo para a fermentação de grão, tendo em conta o maior conteúdo de energia em porcos desmamados.

6. Efeitos da suplementação com xilanase em dietas baseadas em trigo sobre o rendimento de crescimento, a digestibilidade de nutrientes e os micróbios intestinais em porcos desmamados.
A suplementação com xilanase em dietas à base de trigo aumentou o rendimento do crescimento e a digestibilidade dos nutrientes até 2,000 U/kg. Além disso, a suplementação com xilanase (2,000 U/kg) diminuiu a riqueza das bactérias intestinais mas diminuiu o crescimento de bactérias patogénicas nocivas, como Escherichia-Shigella, no cólon nas baterias.

7. Efeito do uso do trigo nas dietas starter de transição sobre a digestibilidade e o crescimento.
Coloca-se a hipótese de que pode ser completamente substituído por milho nas dietas de desmame. Tanto os resultados do rendimento como da digestibilidade (em termos de N, EE, EB, P e FND) demonstram que o trigo pode ser substituído total o parcialmente pelo milho nas dietas de transição. Além disso, a adição de enzima carbohidrase nas dietas starter melhorou a digestibilidade dos nutrientes, ainda que tenha dado como resultado um pior rendimento de crescimento.

Referências
Foreing Agricultural Service. USDA. https://apps.fas.usda.gov/psdonline/app/index.html
FEDNA: http://www.fundacionfedna.org/
FND. CVB Feed Table 2016. http://www.cvbdiervoeding.nl
INRA. Sauvant D, Perez, J, e Tran G, 2004, Tables de composition et de valeur nutritive des matières premières destinées aux animaux d'élevage,
NRC 1982. United States-Canadian Tables of Feed Composition: Nutritional Data for United States and Canadian Feeds, Third Revision.
Rostagno, H,S, 2017, Tablas Brasileñas para aves y cerdos, Composición de Alimentos y Requerimientos Nutricionales, 4° Ed

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