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A lactação das porcas hiperprolíficas é eficiente? (1/2)

A produção de leite representa 75 a 80 % das necessidades totais da porca lactante. (Foto: Instalações de investigação, NEPSUI/ UFMG)

A produção de leite representa 75 a 80 % das necessidades totais da porca lactante. (Foto: Instalações de investigação, NEPSUI/ UFMG)

Este estudo foi concebido para determinar se a mobilização do tecido corporal durante a lactação, exigida pela restrição alimentar, pode afetar o tamanho da ninhada e o rendimento reprodutivo da lactação seguinte.

2ª feira 3 Julho 2017 (há 2 anos 6 meses 14 dias)
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A porca atual na fase de lactação

Durante os últimos 15 anos, a produtividade das porcas aumentou substancialmente devido aos avanços no maneio e a uma seleção genética baseada em parâmetros como o tamanho da ninhada, o intervalo desmame-cio e a eficiência da lactação. A maioria dos dados demonstram a eficiência de uma seleção equilibrada que proporciona porcas com maior capacidade reprodutiva e maiores taxas de sobrevivência dos leitões, o que permite a produção de ninhadas maiores sem aumentar a mortalidade dos leitões. Atualmente, as porcas desenvolvem-se precocemente, são mais produtivas, mais pesadas e têm menores reservas corporais de tecido adiposo que os genótipos anteriores. Também têm necessidades nutricionais mais elevadas e são menos resistentes a desafios ambientais, imunológicos e nutricionais (Silva et al., 2009 e 2013). A seleção por prolificidade elevada afeta negativamente o estado catabólico da porca durante a lactação e, em consequência, o rendimento das suas ninhadas (Foxcroft, 2008). Para satisfazer as necessidades nutricionais das porcas durante a lactação, devemos conhecer o seu peso corporal, a produção e composição do leite e as condições ambientais.

Embora seja difícil medir as necessidades nutricionais, a produção de leite representa cerca de 75 a 80% das necessidades totais da porca em lactação, enquanto que os 20 a 25% restantes são para manutenção (Aherne and Foxcroft, 2000). Além disso, a porca atual apresenta uma capacidade de ingestão mais reduzida como resultado da seleção genética para uma maior eficiência alimentar dos porcos de engorda (Bergsma et al., 2009). Esta menor capacidade de ingestão afeta o crescimento da glândula mamária e a síntese de leite (Kim et al., 1999). Apesar da produção de leite ser relativamente pouco afetada por uma deficiência marginal de proteína e energia na dieta, porque as porcas são capazes de mobilizar proteína e energia corporal para atenuar as necessidades em aminoácidos e energia para a síntese de leite (Revell et al., 1998), a deficiência severa de proteína e energia reduz a produção de leite (Knabe et al., 1996; Jones and Stahly, 1999). Quando não se proporciona às porcas uma quantidade suficiente de aminoácidos e/ou energia, mobilizam-se nutrientes de diferentes tecidos corporais, especialmente músculo esquelético e gordura, para compensar as necessidades para a produção de leite. A mobilização excessiva de proteína materna envolve geralmente uma falha reprodutiva subsequente (Jones and Stahly, 1999; Vinsky et al., 2006). A condição corporal da porca e a sua dinâmica são indicadores do seu estado fisiológico. O fornecimento adequado de nutrientes às porcas lactantes pode influenciar positivamente a sua condição corporal, maximizando a sua produtividade no que diz respeito à produção de leite e ao crescimento dos leitões (Oelke et al., 2008), e minimizando os problemas reprodutivos após o desmame (Dourmad et al., 2008).

Pode-se restringir a alimentação das porcas em lactação?

Os efeitos da restrição de nutrientes e consequente catabolismo durante a lactação sobre a reprodução e a longevidade têm sido amplamente estudados nos últimos anos (Foxcroft et al., 1995; Vinsky et al., 2006; Quesnel, 2009; Schenkel et al., 2010; Patterson et al., 2011). No entanto, ainda não se compreende completamente o comportamento metabólico das porcas submetidas a um catabolismo intenso (Bergsma et al., 2009; Patterson et al., 2011). Nesse sentido, realizámos um estudo (tabela 1) com o objetivo de avaliar o impacto da restrição alimentar durante a lactação das porcas hiperprolíficas sobre o seu rendimento e para determinar se a mobilização do tecido corporal durante a lactação, imposta pela restrição alimentar, poderia afetar o tamanho da ninhada e o rendimento da porca na lactação seguinte.

Tabela 1. Impacto da restrição alimentar sobre o rendimento das ninhadas durante os 28 dias de lactação e sobre a lactação seguinte (Adaptado de De Bettio et al., 2016)

Parâmetros Tratamentos DER1 Estatísticas2
Ad libitum Restringido
Número de porcas 20 20
Consumo (d 1- desmame), kg d-1 6,43 4,14 0,24 TL***
Perda de peso corporal da porca, kg 7,8 28,2 8,5 TL***
Intervalo desmame-cio, d 4,3 4,3 0,5
Tamanho da ninhada
Ao parto 15,1 15,1 2,6
Ao desmame 12,9 12,8 0,9
Peso médio leitão, kg
Ao parto 1,36 1,39 0,21
Ao desmame 7,40 6,93 0,63 TL
Peso da ninhada, kg
Ao parto 20,50 21,00 3,29
Ao desmame 95,31 88,56 4,54 TL*
Aumento de peso da ninhada, kg d-1 2,70 2,43 0,36 TL*TL*
Produção leite, kg d-1 8,33 6,99 1,16 TL**
Eficiência da lactação3, % 72,93 82,30 8,77 TL*
Tamanho da ninhada no parto seguinte 15,10 14,07 1,52 TL

1 DER= desvio padrão residual.
2 Obtido por análise de variância (incluindo os efeitos de modelo linear geral que inclui os efeitos do número de parto (O), tratamento (TL) e repetições da porca (G) e as suas interações (TLxO; TLxG).
3 A eficiência da lactação (EL) foi calculada pela equação de Bergsma et al. (2009). EL (%) = entrada de energia (derivada da ingestão de ração e da mobilização corporal) pelo uso em manutenção da porca e manutenção e crescimento da ninhada.
***P<0,001; **P<0,01; *P<0,05; P<0,10.

As porcas submetidas à restrição de alimento apresentaram maior perda de peso corporal do que as porcas de controle, correspondentes a 12,9 e 3,3% do peso inicial, respetivamente. Da mesma forma, outros estudos que avaliam os efeitos da restrição alimentar em porcas primiparas durante a lactação relataram perdas de peso de 3,1 e 8,7% (Vinsky et al., 2006) e 3,7 e 11,0% (Patterson et al., 2011) em porcas alimentadas ad libitum em comparação com as restringidas, respetivamente. A maior perda de peso observada no nosso estudo nas porcas restringidas pode ser atribuída ao facto de que elas produziram, em média, 34 % mais leite que os relatados nos estudos acima mencionados, explicando as necessidades nutricionais mais elevadas e, em consequência, uma maior perda de peso corporal. Além disso, as porcas submetidas à restrição alimentar apresentaram maior perda de espessura de gordura dorsal. Embora a espessura da gordura dorsal não reflita as reservas totais de gordura, as mudanças neste parâmetro podem indicar que a porca tem um balanço energético negativo (Jittakhot et al., 2012). Portanto, estes resultados indicam que a redução observada na espessura de gordura dorsal reflete uma quantidade energética insuficiente durante a lactação.

Quando as porcas não são alimentadas com as quantidades adequadas de nutrientes, especialmente de proteínas e lípidos, as proteínas musculares esqueléticas são mobilizadas para suprir as necessidades da produção de leite. As porcas com alimento restringido apresentaram maiores perdas de proteínas e lípidos em comparação com as ad libitum. Vários estudos sugerem que as alterações nutricionais e metabólicas nas porcas lactantes podem ter efeitos nocivos sobre a sua biologia, com impacto negativo sobre o desenvolvimento dos folículos e, em consequência, sobre o desenvolvimento embrionário e o número de leitões nascidos na ninhada seguinte (Foxcroft et al., 2007; Ashworth et al., 2009; Quesnel, 2009; Schenkel et al., 2010; Hoving et al., 2011). De acordo com Foxcroft et al. (2009), os mecanismos que afetam a fertilidade podem envolver alterações hormonais, bem como mudanças epigenéticas e/ou mudanças na expressão de genes relacionados com o desenvolvimento embrionário. As porcas sob catabolismo severo apresentam níveis reduzidos de IGF-1 (fator de crescimento de insulina tipo 1) (Patterson et al., 2011), induzindo a mobilização de proteína endógena (Zak et al., 1997). Uma perda de massa proteica superior a 12 % durante a lactação pode reduzir o número e o diâmetro dos folículos, e diminuir os níveis de IGF-1 em porcas submetidas a uma restrição proteica durante a lactação (Clowes et al., 2003 a, b). Schenkel et al. (2010) descreveram recentemente a redução do tamanho da ninhada seguinte quando a perda de massa corporal e de proteína excedam 8 e 9%, respetivamente.

No nosso estudo, o tamanho da ninhada seguinte das porcas submetidas a restrição de alimento foi menor em relação ao grupo ad libitum (15,16 vs. 14,13 leitões). A redução de -1,03 leitões pode estar relacionada com a perda de 12,9 e de 13,8% da massa corporal e de proteína, respetivamente, observada nas porcas submetidas a restrição alimentar neste estudo. Deve-se notar que essas perdas são superiores aos 12% descritos na literatura. Isso indica que a predisposição para uma mobilização excessiva de massa proteica nas porcas hiperprolíficas submetidas a restrição alimentar pode ter um impacto negativo sobre a ninhada seguinte.

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