Morte aguda de leitões lactantes

A administração de rodenticidas deve ser feito com o máximo cuidado para não provocar mortalidade aos animais, como aconteceu neste caso.

2ª feira 5 Maio 2008 (há 10 anos 2 meses 15 dias)

Descrição da Exploração

Trata-se de uma exploração de 800 porcas que produz leitões até final das baterias em bandas semanai, a exploração é comercial positiva a PRRS e negativa a Aujeszky.

O plano de vacinação das porcas é o habitual:

• Aujeszky: Vacina de rebanho 3 vezes por ano.
Coli: 3 semanas antes do parto a todas e 6 semanas antes nas de primeiro parto.
• Parvo e mal rubro: 1 semana pós-parto

As primíparas entram de fora e são negativas a PRRS. Tornam-se positivas numa quarentena e posteriormente permanecem isoladas durante 2 meses, para serem cobertas após se ter superado a infecção.


Aparecimento do Caso

Dois dias antes de nos deslocarmos à exploração, o encarregado ligou para comentar que tinham morrido 3 leitões lactantes nos últimos 3 dias. Segundo nos conta pelo telefone, “é bem visível nestes leitões, imediatamente após a morte ficam azuis, sobretudo na zona das pernas”.

A última das 3 baixas é recente e o encarregado propõe congelar o cadáver para poder fazer a necrópsia durante a visita que temos programada para daí a dois dias.

Durante este período de tempo começamos a nos questionar sobre as causas que podem provocar mortalidade repentina e aparecimento de cianose.


Evolução do Caso

Quando chegamos à exploração ao fim de 2 dias havia outra baixa e além de nos terem trazido a de há 2 dias convenientemente congelada. Externamente, ambos leitões estão anémicos e apresentam cianose sobretudo nas extremidades, nas mucosas e ao redor dos olhos. Um deles tem hematomas de tamanho variável à volta do corpo.


Ficámos algo alarmados pelo aspecto exterior dos animais. No caso de doenças como o Glässer, o PRRS ou inclisive na fase terminal de animais afectados por E. Coli, pode-se observar cianose da pele. Também, ouvimos dizer que em casos de Peste Suína Clássica, os animais podem chegar a ter petéquias e cianose da pele.

Antes de começar com a necropsia decidimos ir ver os animais:

• Os leitões têm umas 2 semanas de vida.
• Surpreendentemente todas as baixas são da mesma ninhada, até hoje morreram 4 em 5 dias.
• Os 6 que permanecem vivos estão bastante bem, estão cheios, mas quiçá um tanto apáticos. Parece que são renitentes em se mover.
• Não estão cianóticos, mas alguns estão um pouco pálidos.
• Mede-se a temperatura e não têm febre.
• O resto das ninhadas da sala não demonstram nenhum tipo de problema.

Ao saír da maternidade não temos as ideias nada claras. Esperávamos encontrar um problema de Glässer ou PRRS, mas o facto de que todos os animais estejam bem e que as baixas sejam de uma mesma ninhada, não bate certo com aquele diagnóstico. Por sorte, tampouco bate certo com o tema da PSC, ou não?


Aspecto das Necrópsias

Enquanto começamos a necropsiar o primeiro leitão e ao voltar a contemplar a anemia generalizada, perguntamos se é possível que tenham esquecido de dar o ferro a essa ninhada de leitões. Não é que esperemos que seja este o problema, mas parece-nos uma pergunta útil para dar conversa e ganhar um pouco de tempo para tentar aclarar o que pode estar a suceder.

Contudoo, a resposta que nos dá o suinicultor, serve-nos de grande ajuda: “Nós pensámos o mesmo, demos ferro a todos há 2 dias e um morreu por ter ficado a sangrar”.

Esta resposta abre-nos os olhos e as lesões que observamos na necrópsia de ambos leitões acabam de confirmar o que suspeitámos.

Este primeiro leitão é o congelado.

Hemorragias generalizadas, sangue congelado na cavidade torácica e abdominal. Coração envolto em grande quantidade de sangue.
Hemorragia abdominal. O aspecto do sangue é devido à congelação. Hemorragia intestinal.



Diagnóstico e Resolução


O que já praticamente dávamos por seguro, é confirmado com a seguinte questão: Veio recentemente a pessoa que se encarrega do controle de roedores? A resposta é afirmativa e as lesões do segundo leitão (iguais as do primeiro, ainda que não tão claras) acabam por confirmar o problema.

Os leitões ingeriram parte de alguma das bolsas de rodenticida que acidentalmente pode ter caido dentro do parque. Os mata-ratas costumam ser factores que inibem a coagulação do sangue, com o que os leitões morreram por hemorragia.


Tratamento

Recomenda-se picar com 5 mg/kg de vitamina K urgentemente o resto dos leitões vivos da ninhada. Durante 5 dias mais, deve-se continuar o tratamento com uma dose inferior (2mg/kg ).


Evolução do Caso

O tratamento funciona perfeitamente (ou o resto dos leitões não tinham ingerido rodenticida), já que não morrem mais leitões.

É um desses casos que cria satisfação porque partindo de uma situação na que não tinhamos ideia do que passava, em 5 minutos o caso diagnostica-se e resolve-se satisfatoriamente. ¡Oxalá se passasse o mesmo todos os dias!


Comentários

O caso clínico dá-se numa exploração de 800 porcas que produz leitões à saida das baterias. 4 leitões de uma mesma ninhada morreram apresentando as seguintes lesões:

• Cianose da pele, sobretudo nas pernas, mucosas e ao redor dos olhos.
• Petéquias e hematomas de tamanho variável na pele.
• Anemia: Palidez generalizada de todo o corpo.
• Hemorragias internas severas, generalizadas em todo o corpo: sobretudo evidentes na cavidade torácica e abdominal e à volta do coração.
• Hemorragias na parede intestinal e conteúdo sanguinolento.
• Hemorragias intermusculares.
• Petéquias nos rins.

Depois de saber que todas as baixas eram da mesma ninhada, que um dos leitões tinha morrido a sangrar depois de ter sido adminsitrado o ferro e que recentemente tinha passado pela exploração o responsável por realizar o controle de roedores, diagnostica-se que o problema é devido a uma intoxicação por ingestão de rodenticidas.

Nos leitões da ninhada que ainda estavam vivos não se observam claramente outros sintomas desta doença:

• Coxeira e andar rigido devido à dor pela presença de hemorragias frequentes nas articulações.
• Fezes escuras, com sangue.
• Epistaxes.

Parece que alguns apresentam letargia e permanecem mais tempo deitados do que o normal. Também parecem algo anémicos.

Mecanismo de acção dos rodenticidas

Os rodenticidas, como o seu nome indica, são compostos químicos que são usados para o controle de roedores (ratos e ratazanas). O mais conhecido é a warfarina. São tóxicos que actuam impedindo a coagulação do sangue o interferir com a vitamina K e reduzir os níveis de protrombina.

Devido ao seu mecanismo de acção, os animais morrem um tempo depois de terem ingerido o tóxico. Isto explica o escalonamento das 4 baixas sucedidas ao longo de 5 dias nesta exploração.

Este efeito retardado da warfarina é o que contribui para o êxito como rodenticida. Os roedores são animais que costumam rejeitar venenos que actuam de forma súbita porque aprendem a evitá-los quando vêem os seus companheiros morrer justamente após ingerir um determinado produto.

Uma dose única de 3 mg/kg é fatal para os porcos, ainda que também se tenha comprovado que doses repetidas (de 7 a 10 dias) a menos de 0,06 mg diários também acabam por provocar intoxicação. Estes leitões que deveriam pesar menos de 4 kg tiveram muito mais do que o suficiente com uma simples bolsita de veneno para os ratos para começar a morrer.

Diagnóstico:

Outras doenças onde também aparece cianose da pele, são Glässer (Haemophilus parasuis), a enterite por E.Coli, a encefalomielte hemaglutinante, o PRRS ou inclusive a PSC. Doenças que apresentam anemia são a Eperitrozoonose (melhor, ictericia) a enterite proliferativa ou o déficit de ferro.

Contudo, neste caso, não foi necessário um diagnóstico laboratorial devido à evidência dos acontecimentos e lesões.

Tratamento:

O tratamento de eleição é a vitamina K administrada a 5 mg/kg no primeiro dia. Posteriormente deve continuar o tratamento com uma dose inferior (2 mg/kg ) durante uns 5 dias.

Casos Clínicos

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