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Que quantidade de vírus PSA é necessária para provocar uma infecção através da água ou da ração?

Num mundo onde os ingredientes da ração se comercializam a nível global, sabemos qual é a dose mínima para transmitir o vírus da PSA através da ração? E da água?

2ª feira 14 Outubro 2019 (há 3 meses 5 dias)
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Artigo comentado
Niederwerder MC, Stoian A, Rowland R, Dritz SS, Petrovan V, Constance LA, et al. Infectious Dose of African Swine Fever Virus When Consumed Naturally in Liquid or Feed. Emerg Infect Dis. 2019;25(5):891-897. https://dx.doi.org/10.3201/eid2505.181495
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Comentário

A epidemia de Peste Suína Africana, que está a afectar a Europa Central e a Ásia, não deixa de nos surpreender, especialmente pela aparente facilidade com a que algumas explorações se infectaram, algumas das quais, com uma aparente boa biossegurança. Este é o caso de algumas das explorações infectadas na Roménia ou na Bulgária. O facto de que os Serviços Veterinários Oficiais Romenos considerassem como provável a infecção de uma destas grandes explorações a partir da água do Danúbio levantou todos os alarmes, pois revendo a bibliografia não havia dados a esse respeito.

O presente artigo é interessante, pois pela primeira vez estabelece quais deveriam ser as doses mínimas infectivas na água e na ração para gerar uma infecção. Que a água contaminada ou a ração possam infectar não deveria ser uma surpresa, pois já sabemos há bastantes anos que alimentar porcos com comida contaminada foi uma das principais vias de infecção. Mas creio que é importante não entrar em pânico e começar a pensar que qualquer ração ou água utilizada numa exploração pode ser material infectante, especialmente se considerarmos a experiência que temos em Espanha com esta doença. Para que me faça entender melhor, fiz uns pequenos cálculos para ver que probabilidade real temos de atingir concentrações infectantes na água de bebida e para que seja mais gráfico tomei por exemplo a exploração teoricamente infectada a partir da água recolhida no Danúbio. Alguém sabe quantos porcos mortos infectados deveriam cair ou serem atirados para o Danúbio para conseguir uma doses de 101 TCID50? Pois bem, considerando os dados do caudal médio do Danúbio: 6500 m3/s e tendo em conta que o peso médio dos porcos atirados ao Danúbio fosse de 50 kg e que todo o sangue presente nestes animais (65 ml/kg de peso) ficasse diluído na água do Danúbio e que a concentração de vírus no sangue fosse a detectada nos casos de uma infecção aguda: 3 x 106 cópias/200 microlitros (Blome et al., 2013) seria necessário que, diariamente, caíssem ou se atirassem ao rio, pelo menos, 115 porcos e que todo o sangue contido nos seus corpos ficasse diluído na água de bebida e que esta água não fosse submetida a nenhum sistema de desinfecção que pudesse reduzir a sua carga viral.

No que diz respeito às matérias-primas e de acordo com o mesmo trabalho, a carga infectiva deve ser maior 105,6 TCID50 pelo que pareceria uma via menos provável se pensamos numa possível contaminação nos campos de origem, mas pode ser um factor para ter em conta se a contaminação se produz durante o armazenamento.

Quando consideremos a biossegurança de suiniculturas, tendo em conta este estudo, haverá que considerar a higienização da água de bebida, especialmente quando esta provenha de origens que possam ter certo risco (como rios ou canais) e no que diz respeito à ração, o mais importante será assegurar que tanto fornecedores como clientes tenham sistemas de armazenagem seguros que evitem o contacto da matéria-prima com fontes de contaminação (como possam ser outros animais: roedores, pássaros, javalis).

Resumo do artigo comentado
Niederwerder MC, Stoian A, Rowland R, Dritz SS, Petrovan V, Constance LA, et al. Infectious Dose of African Swine Fever Virus When Consumed Naturally in Liquid or Feed. Emerg Infect Dis. 2019;25(5):891-897. https://dx.doi.org/10.3201/eid2505.181495

O que se estuda?
A Peste Suína Africana (PSA) é uma doença animal contagiosa transfronteiriça que se propaga rapidamente e representa uma ameaça importante para a produção de carne de porco a nível mundial. Ainda que as rações de base vegetal possam ser uma potencial via para a introdução de vírus nas suiniculturas, pouco se sabe sobre os riscos de transmissão do vírus da PSA no alimento ou na água. Esta investigação tem como objectivo determinar as doses infecciosas mínimas e medianas da estirpe Georgia 2007 do vírus da PSA através da exposição oral durante o comportamento natural de alimentação e bebida.

Como se estuda?

A infecção experimental foi levada a cabo em 68 porcos híbridos sãos de cerca de 52 dias de idade numa instalação de contenção de biossegurança nível 3. Realizaram-se 7 réplicas separadas com as diferentes doses. A fonte do vírus era o baço que era recolhido de porcos infectados de forma aguda com a estirpe do vírus da PSA, Georgia 2007 (a estirpe que circula actualmente na Europa e na Ásia). A dose de vírus foi titulada em diferentes diluições de 100 a 108 TCID50/ml (Dose infectiva 50% em cultura tissular), que se juntou a 100 ml de meio líquido (RPMI) ou a 100 g de ração (livre de ingredientes de origem animal). A selecção da dose infecciosa determinou-se utilizando o método de reavaliação continua para ajustar a ID50 (Dose infecciosa) e optimizar a curva de determinação da dose. Os porcos tiveram restringido o acesso ao alimento e à água durante 10-14 horas para assegurar o consumo do líquido ou do alimento com o vírus.

Os porcos de controlo não inoculados foram alojados com porcos expostos em parques separados. Os porcos foram expostos a uma só dose de vírus da PSA. Baseando-se na exposição única, os autores modelaram exposições repetidas, supondo que as exposições repetidas sejam eventos independentes. Calcularam a probabilidade de infecção de múltiplas exposições como 1-(1-p)q, p=probabilidade de exposição única e q=número de exposições.

Os porcos foram examinados clinicamente duas vezes por dia até serem eutanasiados ao dia 5 ou antes, se se observassem sinais clínicos de PSA.

Confirmou-se a infecção através de 3 provas: PCR no sangue, PCR no baço ou isolamento do vírus no baço.

Quais foram os resultados?

Trinta e dois porcos apresentaram evidência de infecção por PSA (16 positivos por isolamento do vírus e PCR no baço, 8 positivos apenas no isolamento do vírus no baço, 8 positivos em todas as provas).

Em geral, a probabilidade de infecção aumentou à medida que aumentava a dose. A dose infecciosa mínima de vírus da PSA no líquido foi de 100 TCID50, em comparação com 104 TCID50 nas rações. A dose infecciosa média foi de 101,0 TCID50 para líquido e 106,8 TCID50 para ração.

Tabela 1. Resumo dos resultados em porcos expostos oralmente ao VPSA em líquido ou ração para determinar a dose infecciosa de VPSA quando se consumo de forma natural.

Dose VPPA, TCID50 Meio líquido Ração de base vegetal
% positivo % positivo
100 37.5 -
101 44.4 -
102 75 -
103 83.3 0
104 100 40
105 - 44.4
106 - 25
107 - 40
108 - 50

TCID50;Dose infectiva 50% em cultura tissular, – Porcos não analisados.

Quando se modelaram múltiplas exposições, a probabilidade de infecção aumenta em todos os níveis de dose tanto para líquido como para ração. Após 10 exposições com líquido que contenha vírus da PSA, a probabilidade é próxima a 1 no nível de dose mais baixo de 1 TCID50.

Que conclusões se tiram deste trabalho?

Este documento demonstra que o vírus da PSA Georgia 2007 se pode transmitir facilmente por via oral através do consumo natural de líquido e de ração, ainda que se requeiram doses mais elevadas para a infecção nas rações de base vegetal.

A baixa dose infecciosa do vírus da PSA através do consumo de líquido deve considerar-se um possível factor para a propagação de PSA através da água.

Apesar de que seja necessária uma dose infecciosa mínima mais alta nas rações em comparação com o líquido, os autores colocam a hipótese de que a alimentação pode representar um maior risco que a proveniência da água porque a entrega de rações é um evento de elevada frequência e o fabrico centralizado de rações utiliza ingredientes cuja origem é mundial, o que facilita a distribuição de rações contaminadas a um grande número de suiniculturas.

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