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Rabobank: Conflito no Médio Oriente ameaça cadeia global agroalimentar

Relatório aponta que o bloqueio no Estreito de Ormuz eleva os custos de energia e fertilizantes, encarece o frete marítimo e pressiona a inflação global, afetando desde as margens do produtor rural até o bolso do consumidor

19 Março 2026
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As crescentes tensões no Médio Oriente e o encerramento parcial do Estreito de Ormuz estão a gerar ondas de choque mensuráveis em todo o setor global de alimentos e agroindustrial. É o que aponta um novo relatório divulgado este mês pelo Rabobank, destacando que a disrupção introduz um ambiente de risco sistémico com impactos estruturais profundos nas cadeias de abastecimento e nas margens de produtores e indústrias.

O impacto primário, segundo os investigadores Justin van der Sluis e Maria Castroviejo, concentra-se no mercado de energia. O Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 20% dos líquidos de petróleo globais diariamente, é o principal gargalo energético do mundo. O relatório traça um cenário em que, com um bloqueio prolongado, o barril de petróleo Brent poderia aproximar-se de US$ 110, e o gás natural europeu (TTF) bateria a marca de € 100/MWh.

A Ásia é a região mais vulnerável fisicamente a esse choque: o Médio Oriente fornece 95% das importações de petróleo do Japão, cerca de 55% da China e da Índia, 70% da Coreia do Sul e 60% dos países da ASEAN. Como a indústria responde por cerca de 50% do consumo total de energia na China e no Vietname (contra 24% na União Europeia), a disrupção ameaça o crescimento económico asiático.

Fertilizantes: ameaça imediata aos custos de produção

O mercado de fertilizantes é um dos focos de maior alerta. O Médio Oriente é um polo crucial e o Estreito de Ormuz é a rota para:

  • 50% das exportações globais de enxofre;
  • 30% das exportações globais de ureia (e 25% a 30% do azoto global);
  • 20% das remessas de amónia;
  • 15% das exportações de MAP, DAP e TSP (fosfatados).

O Rabobank destaca que o tráfego de embarcações caiu para quase zero. Como resultado, a ureia do Norte da África registou subida de 20% e o gás natural na UE saltou cerca de 70%, apenas na primeira semana do conflito. O cenário agravou-se com a paralisação da produção de GNL no Catar, forçando o encerramento da indústria da QAFCO, com capacidade de 5,6 milhões de toneladas métricas/ano de ureia.

Segundo o banco, um aumento sustentado de 20% a 30% nos preços da amónia e do enxofre pressionaria severamente as margens globais. Vale lembrar que os fertilizantes representam frequentemente entre 40% e 50% dos custos variáveis nas lavouras de cereais.

Logística e o impacto no comércio de proteínas

A região do Golfo Pérsico importa anualmente quase US$ 90 mil milhões em produtos alimentares e agrícolas. A crise já inflaciona os fretes globais. O relatório cita que o mercado já relata custos extras de US$ 4.000 por contentor para as importações chinesas de carne congelada, traduzindo-se num aumento de cerca de 2,5% no custo por tonelada métrica de carne bovina.

O setor de proteína animal sente o golpe de forma aguda. O Médio Oriente representa 15% do comércio global de aves e quase 10% do crescimento da produção global. Além disso, a região absorve cerca de 12% das exportações de aves da China e 5% da Tailândia — remessas que atualmente estão suspensas, gerando acumulação de stocks nestes países asiáticos.

Para a Austrália, o impacto é gigantesco na ovinicultura: o Médio Oriente é o destino de 90% das ovelhas vivas exportadas pelo país, além de comprar 19% das exportações australianas de carne de borrego e 31% de carne de ovino (dados de 2025). No setor de laticínios, cerca de 6% das exportações da Europa e Nova Zelândia, que têm a região como destino, também passam pela rota em conflito.

Embalagens: plástico e papel sob pressão

A cadeia de embalagens, intimamente ligada ao setor alimentício, também sofre. O Médio Oriente fornece cerca de um terço da nafta comercializada globalmente. O encerramento do estreito restringe aproximadamente 1,2 milhão de barris por dia (mbpd) de fluxos de nafta e afeta o trânsito de US$ 20 a 25 mil milhões anuais em produtos petroquímicos.

O impacto é severo para a indústria, uma vez que as resinas plásticas representam de 50% a 70% dos custos dos produtos vendidos para embalagens de polietileno (PE) e polipropileno (PP).

O mercado de papel também sente os reflexos da restrição de procura. A região do Médio Oriente importou, em 2025, cerca de 725.000 toneladas métricas de containerboard (papelão ondulado) e 200.000 toneladas métricas de cartonboard (papel cartão), volumes que agora os produtores europeus, que já enfrentam excesso de oferta, terão dificuldade em escoar.

O Reflexo no Consumidor Final: Inflação e "Trade Down"

Na ponta final da cadeia, o consumidor pagará a conta. O Rabobank projeta que, sob um cenário de energia cara e prolongada, a inflação superará a marca de 3%, tanto na Zona do Euro como nos Estados Unidos, em 2026, com o crescimento económico a recuar cerca de 0,3% em relação às projeções anteriores.

Neste ambiente, espera-se um declínio real nas vendas do retalho alimentar (de estável a -0,5%), com consumidores a acelerar o chamado trade down (troca por produtos e marcas mais baratas, como as de marca própria). Os serviços de alimentação (foodservice) vão perder, à medida que fatias maiores do orçamento familiar serão consumidas pela subida da gasolina e do gasóleo.

Em resumo, a instabilidade prolongada testa toda a espinha dorsal logística e de custos do negócio agroalimentar, drenando as margens desde o agricultor, exposto à subida dos fertilizantes, até à indústria de processamento e consumidor final, espremido pela inflação.

17 de março de 2026/ ACCS e Rabobank

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