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Uma manifestação pouco habitual de infecção por Strep suis

Pelo menos 25% dos leitões de 2 a 3 semanas estavam coxos, alguns estava tão coxos que ficavam deitados nos refúgios a tremer e eram incapazes de se pôr em pé.

2ª feira 7 Março 2016 (há 3 anos 5 meses 11 dias)
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A infecção por Strep suis é bem conhecida como causa de doença em porcos jovens: produz problemas clínicos que variam desde problemas articulares até meningite e septicémia. Também se crê que contribua patologicamente para a ocorrência de poliserosites em porcos jovens, causando danos evidentes no matadouro como pleuresias, pericardites, etc.

Conhecem-se muitas estirpes e serotipos cuja patogenicidade varia desde grave a oportunista enquanto que algumas são puramente comensais.

Durante os últimos 25 anos o Strep suis tipo 14 tem sido associado a poliartrites em leitões (patologia articular) no Reino Unido produzindo, frequentemente, surtos espectaculares de coxeiras em leitões de 2-4 semanas de idade. Este caso clínico descreve um destes surtos que acarretou graves consequências para os animais.

 

Descrição da exploração

Tratava-se de uma exploração de produção de leitões com 320 porcas ao ar livre. As porcas se manejadas em lotes de 3 semanas, pensados para produzir 450 leitões desmamados cada um mas, como as cobrições eram pouco rigorosas, os partos alargavam-se durante mais de 14 dias implicando que, ao desmame, os leitões oscilassem entre os 18 e os 35 dias de idade, com uma média de 26 dias.

Típico sistema al aire libre

Figura 1. Típico sistema ao ar livre.

As porcas eram cobertas em grupo mediante IA em parques ao ar livre nos que cada lote se dividia em dois grupos, um grande e um pequeno. As nulíparas também era cobertas ao ar livre e eram introduzidas sequencialmente noos lotes de parto (de 3 em 3 semanas). Não se programava a sua entrada em cio, deixando-se que as mesmas ciclassem de forma natural.

O estado sanitário da exploração era muito básico, conhecendo-se a presença de M. hyopneumoniae, PRRS e PCVAD, e vacinava-se rotineiramente para M. hyo e PCV­2 ao desmame. A produtividade da exploração era modesta, com uma taxa de partos abaixo de 80%, um índice de partos de 2,2 no máximo e com uma média de 9,5 desmamados por ninhada. Deste modo, cada lote dificilmente superava os 400 animais.

Os partos eram ao ar livre nos cabanas semicilíndricas colcoadas em parques de 12 porcas, ainda que as nulíparas parissem em parques individuais.

A exploração tinha-se inciado 4 anos antes, nuns terrenos que previamente tinham sido cultivados. Havia um único tratador com experiência, que trabalhava a tempo inteiro e que contava com a ajuda a tempo parcial do proprietário ou de um trabalhador do campo, nenhum dos quais tinha experiência prévia com porcos. As porcas de substituição que entravam de 2 em 2 meses eram procedentes da mesma origem que forneceu porcas para arrancar com a exploração.

Após o desmame, as porcas voltavam aos parques de cobrição/secas e os leitões eram divididos em 4 "ninhos" em grupos de +100 onde estavam durante 38 dias. Nessa altura eram transferidos e juntavam-se num pavilhão com cama de palha onde permaneciam durante 20 dias sendo de novo transferidos para uma exploração de engorda independente. A ração starter dos desmamados continha 3,1kg/ton. de óxido de zinco, mas não se juntava mais nenhum antibiótico.

Nidos al aire libre donde se alojaban los cerdos desde el destete hasta las 9 semanas de vida

Figura 2. Ninhos ao ar livre onde se alojavam os porcos desde o desmame até às 9 semanas de idade.

 

Problemas iniciais

Segundo o tratador, e tal constava nos registos, o primeiro problema ocorreu no lote 66 no qual a mortalidade dos leitões subiu desde o valor mádio de 14% dos nascidos vivos para os 18%. Além disso, cerca de 20 animais de distintas ninhadas tinham sido tratados com penicilina/estreptomicina por problemas articulares. A resposta ao tratamento foi fraca. Uma consulta ao veterinário local fez com que, a partir do lote 67, se mudasse o tratamento para ampicilina injectada nos leitões afectados, que estavam coxos desde as 2 semanas de idade. O número de leitões afectados no lote 67 foi similar ao do 66 mas, quando o lote 68 chegou às duas semanas de idade, o número de afectados cresceu dramaticamente e foi chamado o veterinário.

Caso agudo de Strep suis tipo 14 en un lechón de 2 semanas de vida

Figura 3. Caso agudo de Strep suis tipo 14 num leitão de 2 semanas de vida.

Pelo menos 25% dos leitões de 2 a 3 semanas estavam coxos, alguns estava tão coxos que ficavam deitados nos refúgios a tremer e eram incapazes de se pôr em pé. A resposta à ampicilina no lote anterior tinha demonstrado ser mais eficaz pelo que se recomendou injectar todos os leitões do lote 68. Os registos seguintes indicaram que a mortalidade pré-desmamte no lote 68 superou os 20% mas, nos leitões que não morreram, a recuperação foi boa. A análise das amostras articulares recolhidas na necrópsia dos leitões afectados foi positiva para Strep suis tipo 14 em 4 das 9 amostras. Não se pôde clarificar quantas das amostras eram provenientes de leitões tratados.

Nos lotes seguintes houve percentagens similares e aplicou-se o mesmo tratamento. Contudo, ao transferir o lote 68 dos ninhos para o parque com palha, ocorreu uma grave complicação e pediu-se imediatamente uma segunda opinião.

Lechones destetados en el gran corral con paja durante las 2 semanas previas a la venta

Figura 4. Leitões desmamados no grande parque com palha durante as 2 semanas anteriores à venda.

 

Complicações da doença

A mudança dos leitões para o parque com palha foi feita com um reboque, em quatro grupos. Os primeiros dois grupos foram carregados nos ninhos sem problemas. Contudo, quando se descarregou o segundo grupo, notou-se que uns seis animais do primeiro grupo estavam completamente coxos de uma pata traseira. Quando se descarregou o segundo grupo, começaram a correr pela palha e a andar atrás uns dos outros de uma forma normal. O suinicultor insistiu em dizer que todos os leitões estavam bem quando desceram reboque mas, em poucos minutos, pelo menos mais 10 estavam bastante coxos, a maioria de uma só pata.

Imediatamente se parou com a mudança e o veterinário chegou em cerca de 3 horas.

Ao chegar, havia 19 leitões afectados de, aproximadamente 20 a 25 kg, que tinham sido separados do grupo principal. O exame clínico revelou que dois dos animais tinham uma coxeira completa num só posterior; um estava em posição de cão sentado e outro estava completamente coxo da sua pata traseira direita. A manipulação da articulação da anca e do joelho revelou que cada porco tinha uma fractura não estável numa das articulações. O porco com postura de cão sentado tinha uma fractura bilateral do colo do fémur.

Todos os porcos foram eutanasiados imediatamente.

Cabeza del fémur fracturada en uno de los cerdos afectados (izquierda) y fémur normal (derecha).

Figura 5. Cabeça do fémur fracturada num dos porcos afectados (esquerda) e fémur normal (direita).

Cabeza del fémur completamente fracturada por la epífisis o debajo de ella mostrando hinchazón alrededor de la fractura debido a periostitis

Figura 6. Cabeça do fémur completamente fracturada pela epífise ou abaixo desta apresentando inchaço em redor da fractura devido a periostite.

A inspecção dos dois grupos de porcos que ainda estavam nos ninhos ao ar livre não revelou coxeiras evidentes e o terceiro lote foi cuidadosamente carregado e transferido para o parque. Quando se descarregaram e desceram a rampa a correr em direcção à palha viu-se como uns quantos claudicaram das suas patas traseiras e depois se voltavam a levantar, mas ficando com uma pata levantada. Quatro animais deste grupo foram eutanasiados e tinham fracturas. Ao quarto grupo não se lhe permitiu correr pelo pátio, realizando uma descarga mais controlada. Foram alojados num parque pequeno e não se observaram coxeiras em nenhum deles.

 

Necrópsias

Realizaram-se necrópsias a quinze dos porcos eutanasiados. Não havia nada a destacar nas cavidades corporais.

Em todos os casos havia uma hemorragia extensa em redor das extremidades aectadas dos grandes ossos. As superficies do fémur próximas às áreas fracturadas (proximal ou distalmente) eram rugosas e estavam inchadas geralmente por debaixo das placas epifisárias que pareciam estar associadas às fracturas espontâneas.

A análise posterior no laboratório não revelou nenhuma infecção activa mas sim uma extensa periostite em formação e ossificação.

 

Recomendações

Deixou-se os restantes leitões do lote grupo irem para o parque principal e ao fim de duas horas apenas um único leitão sufreu uma fractura espontânea. O número total de fracturas foi de 26 antes que o lote tivesse sido vendido três semanas mais tarde, após um tratamento com aspirina dissolvida na água.

Os dois lotes seguintes (69 e 70) receberam penicilina V na ração durante 14 e 38 dias respectivamente e aspirina dissolvida na água durante 7 dias. As porcas da maternidade também foram medicadas com trimetoprim/sulfadiazina via ração.

Ao perguntar ao tratador, este disse-nos que a maioria dos leitões do parque de partos que deviam ser tratados apenas receberam uma única dose de ampicilina de curta duração devido a um excesso de trabalho/ pouco tempo/ dificuldade para os agarrar ou prender.

Mudou-se o tratamento por uma amoxicilina de longa duração com um mínimo obrigatório de duas doses separadas por 48 horas.

Não se detectaram problemas nos lotes 69 e 70 após o início do tratamento nem em nenhum dos lotes seguintes. As ninhadas nascidas de porcas que tinham recebido a ração medicada desde o parto tiveram uma redução espectacular dos problemas articulares (do lote 72 em diante). Trâs meses depois eliminou-se o antibiótico da dieta sem nenhuma recidiva. O tratamento com aspirina também cessou e recomendou-se a melhoriar do programa de cobrições para tentar reduzir a variação de idades dos leitões ao desmame.

 

Discussão

Os surtos pouco habituais e apelativos de fracturas espontâneas nos ossos grandes não podem ser completamente explicados. Contudo, propôs-se que poderão estar associados à poliartrite prévia provocada pela infecção por Strep suis tipo 14, que se tratou de um modo inadequado. Parece provável que uma única dose de ampicilina de curta duração, pese ser suficiente para aliviar a coxeira aguda aos 14-21 dias de vida, não conseguiu eliminar a infecção que parecia ter penetrado através das membranas sinoviais até aos tecidos do perióstio provocando um debilitamiento debaixo da epífise que causou as fracturas quando a actividade dos leitões aumentou depois de serem transferidos.

A maior parte das fracturas afectaram o fémur proximal ou distal mas não podemos explicar porque não houve outros ossos afectados.

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