Um caso de PRRS com complicações por Haemophilus parasuis

O PRRS só por si é um factor de forte desestabilização numa exploração suinícola. Combinado com Haemophilus parasuis ainda é pior

2ª feira 7 Novembro 2005 (há 12 anos 7 meses 12 dias)

Descrição do Caso

O caso aparece numa exploração de ciclo fechado de 160 porcas situada na Bretanha francesa com um maneio em bandas de 3 semanas e desmame aos 28 dias de vida.


Construções velhas
  • Gestantes: porcas em jaulas individuais
  • Maternidade : 2 salas com grelha de betão
  • Pós-Desmame : 2 salas com grelha de betão
  • Engorda: 5 salas com grelha de betão
Construções recentes
Transição 1 sala com 6 parques sobre grelha de plástico

As porcas de substituição procedem de um multiplicador positivo para PRRS. As doses de inseminação são compradas.

A desinfecção entre bandas realiza-se de forma correcta. A água de bebida está correctamente clorada. As tabelas 1, 2 e 3 mostram o estatuto sanitário, o plano de vacinação da exploração e os tratamentos antiparasitários que se practicam, respectivamente. Como medida de prevenção, a ração de primeira idade distribuída na transição, é suplementada com colistina para prevenir a colibacilose e com tiamulina para prevenir diarreias.

Tabela 1. Estatuto sanitário da exploração.
Aujeszky Indemne
PRRS Positiva
Actinobacillus pleuropneumoniae Positiva (B1S2), sinais clínicos observados sobretudo na engorda
Mycoplasma hyopneumoniae Positiva
Tabela 2. Plano vacinal.
Porcas Aujeszky, Parvovirose, Mal Rubro, Rinite atrófica, Colibacilose (K88, K99, 987 P).
Primíparas Aujeszky, Parvovirose, Mal Rubro, Rinite atrófica, Colibacilose (K88, K99, 987P), PRRS (2 injecções).
Leitões Mycoplasma (2 injecções durante a 1 e 5 semanas de vida), PRRS (1 injecção às 7-8 semanas de vida), Aujeszky.

A vacinação contra PRRS nos leitões realiza-se rapidamente, às 4 semanas de vida (as análises serológicas realizadas aos leitões mostraram que a seroconversão aparecia às 7 semanas de vida).

Tabela 3. Tratamento antiparasitário.
Porcas Flubendazol à entrada na maternidade.
De 2 a 3 vezes ao ano 2 pulverizações com amitraz com um intervalo de 15 dias.
Leitões Flubendazol na ração de primeira idade.



Aparecimento do Caso


Após o aparecimento de sérios problemas clínicos nas maternidades e na transição, o produtor decide contactar com o veterinário.

Maternidade: um número importante de leitões das duas últimas bandas apresentam poliartrites a partir das 3 semanas de vida e tosse.

Transição: na semana antes de entrar na transição, os leitões têm dispneia, além de coxeiras. Observa-se, também, emagrecimento e aumento da mortalidade.

O produtor, ante a situação, decide tratar a água de bebida dos leitões com TMP/sulfa mas a situação não melhora.


Visita à Exploração

Ainda que não tenha havido mortalidade durante a noite a situação na transição piorou.

Porcas gestantes

Não se observam problemas reprodutivos já que os cios são bons, não existem baixas do índice de fertilidade (aproximadamente de 85%). As porcas não apresentam nenhum sintoma especial (ausência de tosse ou de hipertermia).

Maternidades

Partos normais (duração dos partos normal, ausência de congestão e comportamento normal das porcas). Observam-se diarreias nas ninhadas de porcas primíparas mas não se trata de um problema novo.

Os sintomas aparecem nos leitões de 3 semanas de vida: 15% dos animais apresenta tosse e 10% coxeiras. As coxeiras relacionam-se com poliartrites.

A morbilidade é elevada mas pelo contrário há pouca mortalidade na maternidade.

Não se observam, nem dispneia nem espirros. Tampouco se observam lesões cutâneas visíveis nos leitões e não se alterou o maneio (corte de dentes e rabos ao nascimento e castração aos 8 dias de vida).

A verificação dos parâmetros de ventilação não mostra anomalias. Não se detectam correntes de ar na maternidade.

Tratam-se os leitões com 2 injecções de amoxicilina LA com 48h de intervalo mas parece pouco eficaz.

Transição

Na transição só há uma banda que entrou há uma semana (35 dias de vida). Os sinais clínicos observados são os seguintes:

Prevalência
Leitões abatidos com dispneia
40 %
Emagrecimento
15-20 %
Artrites
10-15 %

A taxa de mortalidade é elevada (5%). Um número elevado de animais apresentam dificuldade respiratória mas pouca tosse.
Ao tomar a temperatura em 10 leitões observa-se febre (>40°C). O produtor comenta que os animales foram vacinados contra o virus da PRRS há uma semana e que após a vacinação parece que o seu estado se agravou.

Autopsias

As autopsias realizadas na exploração em dois leitões doentes apresentam um emagrecimento muito pronunciado e dispneia. Observam-se lesões na cavidade torácica (pericardite fibrinosa, pleuresia fibrinosa (sem edema pulmonar)).

Derrame pleural Pericardite + Pleuresia

Pulmões com depósitos de fibrina



Hipótese de Diagnóstico e Medidas Tomadas

As lesões observadas fazem pensar numa co-infecção bacteriana (Haemophilus parasuis ou Streptococcus suis) mas é possível que se trate de uma sobre-infecção de origem viral, podendo-se tratar de uma reaparição do PRRSV (a exploração é positiva) ou de gripe ( H1N1, H1N2, H3N2).

Decide-se realizar uma análise laboratorial, para o efeito o veterinário indica ao produtor que envie para o laboratório dois leitões vivos, preferívelmente não tratados, com artrite e tosse assim como amostras de sangue de 15 porcas para poder conhecer qual é o verdadeiro estatuto da exploração (estável/instável).

Bacteriologia Cultivo ELISA


Medidas Propostas

1) Tratamento de todos os leitões de 3 semanas de vida com ceftiofur (6 mg / kg) por via intramuscular.

2) Decide-se parar com a vacinação contra o PRRSV já que os animais ficam doentes às 4-5 semanas e o choque vacinal poderia dar lugar a um agravamento dos sintomas e/ou à injecção aumentar a pressão de contaminação. Relativamente à vacinação contra micoplasma decide-se atrasar uma semana.

3) Na transição: ácido acetilsalicílico (3 g /100 kg/d) durante 3 dias e amoxicilina (20 mg /kg/d) durante 5 dias.

4) Medidas de biosegurança:

  • Colocam-se pedilúvios na maternidade e na transição.
  • Proibe-se a entrada de cães.
  • Na maternidade e transição realiza-se dupla desinfecção antes da chegada de uma nova bandas: desinfecção clássica por pulverização com um desinfectante à dose de homologação seguida de uma segunda desinfecção por termonebulização com um desinfectante à base de amónios quaternários e glutaraldeído.



Resultados Laboratoriais e Evolução do Caso

Resultados laboratoriais

1. Autopsias dos leitões

Leitão de 3 semanas não tratado Leitão de 6 semanas tratado
Cavidade abdominal Normal Hipertrofia no baço
Cavidade torácica Pulmões: hepatização avermelhada difusa
Coração normal
Pulmões: pleuresia fibrinosa, hepatização cinzenta (14/28)
Coração:pericardite fibrinosa
Articulações Normal Poliartrite fibrino-purulenta
Bacteriologia Haemophilus parasuis nas lesões pulmonares Mycoplasma hyorhinis nas articulações

Em relação a estes resultados deve-se referir por um lado que a eleição dos leitões realizada pelo produtor foi pouco acertada e que o primeiro leitão não apresentava lesões articulares e o segundo leitão tinha sido tratado, o que torna práticamente impossível que se possa isolar Haemophilus parasuis.

2. Análises serológicas para PRRS

Porcas
Intervalo de portadoras PRRSV (IDEXX)
Limite de positividade: 0,4
0
2,54
0
2,60
1
3,43
2
4,41
3
2,67
3
4,32
3
1,75
3
4,80
4
3,77
4
2,71
6
5,48
7
3,53
7
0,22
8
5,70
8
0,83

Segundo estes resultados a exploração é instável e os índices de anticorpos são muito elevados em quase todas as porcas analizadas.

Pode-se concluír que existe um novo surto recente de PRRS na exploração. Contudo, os sintomas clássicos observados nos reprodutores não se constataram no presente caso.

Diagnóstico

É muito provável que a causa dos problemas observados seja um novo surto de PRRS nas porcas (ainda que estas não tenham apresentado sintomas). Os leitões procedentes das porcas infectadas contaminaram-se in utero ou n momento do parto e apresentaram os sintomas no momento do desmame.

Os sinais clínicos observados são o resultado de uma sobre-infecção (Haemophilus parasuis e/ou Mycoplasma hyorhinis).

Evolução do caso

Banda afectada (na transição durante a visita): os leitões não conseguiram recuperar realmente e os resultados são maus (GMD 8-25: 250 g/d ; mortalidade: 25%).

As duas bandas seguintes: alguns leitões apresentaram artrite mas globalmente houve poucas perdas (1%) e os crescimentos foram normais (450 g/d).

Neste ponto devem fazer-se várias perguntas:

  • ¿É necessário deixar de utilizar ceftiofur às 3 semanas de vida?
  • ¿O isolamento de Haemophilus parasuis a partir de uma lesão pulmonar é significativo? ¿Considerarias a sua incorporação numa autovacina (porcas)?
  • ¿É necessário retomar a vacinação contra o PRRSV?
  • ¿Deveria-se equacionar a origem das primíparas (+ para PRRSV)?


Comentários

O caso aparece numa exploração de ciclo fechado de 160 porcas situada na Bretanha francesa com um maneio em bandas de 3 semanas e desmame aos 28 dias de vida.
Os sinais clínicos aparecem em leitões desmamados. Ao mesmo tempo, o estatuto para o PRRSV nas reprodutoras é instável (taxa de anticorpos elevada). Pode parecer estranho que as porcas não tenham apresentado sintomas mas isto pode estar relacionado com a baixa patogenia da estirpe viral nos reprodutores. Por outra lado, nunca houve um episódio grave de PRRSV nos reprodutores desta exploração.

Uma elevada percentagem dos leitões procedentes de porcas foram contaminados in utero ou pouco depois do nascimento. Por outro lado, não se encontram bem protegidos já que a infecção das porcas foi recente.

Os leitões provavelmente desenvolveram infecções secundárias devidas a Haemophilus parasuis ou Mycoplasma hyorhinis) durante o desmame.

¿Que importância deve conceder-se a estes patógenos secundários? Haemophilus parasuis foi isolado de uma lesão pulmonar e não de uma articulação ou um derrame pericárdico. O animal do qual se isolou Mycoplasma hyorhinis tinha sido tratado, o que reduz as possibilidades de detectar Haemophilus parasuis.

Relativamente ao tratamento realizado num primeiro momento torna-se necessário deixar o tratamento com ceftiofur nas 2 ou 3 bandas e controlar os leitões após as 3 semanas de vida (aparecimento de artrites, tosse).

Em segundo lugar :

1) Se os sintomas não reaparecem será necessário acompanhar a evolução do nível de anticorpos nas porcas mediante um controle serológico dentro de 6 meses. Poderá considerar-se a vacinação contra o PRRSV mediante uma vacina inactivada se os níveis de anticorpos são heterogéneos (risco de novo surto). Por outro lado, se poderá retomar a vacinação contra a PRRS nos leitões após ter realizado um perfil (5 amostras de sangue às 7, 10, 13 e 20 semanas de vida).

2) Os sintomas estão ainda presentes: dever-se-á colher amostras de leitões vivos não tratados com artrite e tosse com o objectivo de isolar um patógeno verdadeiramente significativo. Em relação com a PRRS não é necessário vacinar no momento já que todas as porcas são positivas. De todas as formas, deverá ter-se em conta o papel que têm as primíparas de substituição positivas no novo surto de PRRS.

Pessoalmente, o veterinário mostra-se a favor da compra de primíparas negativas para uma boa adaptação às condições da exploração antes da sua introdução como:

  • Vacinação no momento da sua chegada e rappel na primeira gestação,
  • Quarentena de 12 semanas,
  • Contaminação na quarentena.

Casos Clínicos

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