Tremores congénitos

Os tremores congénitos são dificeis de serem diagnosticados. Deve ser feito o diagnóstico diferencial

2ª feira 3 Janeiro 2005 (há 13 anos 7 meses 17 dias)
gosto

Descrição da Exploração


Trata-se de uma exploração de 300 reprodutoras em ciclo fechado do sul de Espanha. Dedica-se à multiplicação para uma cooperativa da zona.

Esta exploração está classificada como indemne de Aujeszky e é livre de PRRS. O nível de maneio é relativamente fraco, os proprietários dedicam-se à exploração a tempo parcial, conjugando o trabalho na exploração com o trabalho na agricultura.

No mês de Agosto, após um acidente grave devido a uma falha eléctrica durante um fim de semana no pavilhão de gestação, morre a grande maioria das porcas na fase de gestação, ficando somente as porcas da maternidade ou do primeiro terço de gestação. A fim de limitar ao máximo o "buraco" de produção, vêem-se obrigados a realizar uma reposição muito intensiva de animais. Dada a magnitude do problema, os proprietários optam por repor com fêmeas da engorda.



Aparecimento do caso


5 meses após o incidente que reduziu o efectivo, somos chamados pelo veterinário da cooperativa a solicitar a nossa opinião sobre um problema de descargas vaginais nas porcas e sobre um quadro nervoso que afecta os leitões lactantes, os dois problemas iniciaram-se de forma grave há dois meses.

Antes de visitar a exploração, procedemos a uma análise dos dados provenientes do seu programa de gestão:


Apenas ficaram porcas de 6 e 7 ciclos e o número de porcas de mais de 3 ciclos era muito baixo (15 porcas por ciclo).

Nesta exploração utiliza-se inseminação artificial em 100% das cobrições. O sémen adquire-se no centro de inseminação da cooperativa onde as últimas analises realizadas descartavam a presença de contaminação bacteriana nas doses enviadas como amostra. O diluidor utilizado inclui lincomicina e espectomicina. Só se utilizam catéteres descartáveis. Utiliza-se um varrasco de detecção de cio que não realiza nenhuma cobrição.

A evolução das baixas nos partos foi a seguinte:



*Apenas existiam dados de ninhadas no período afectado de porcas de mais de 3 ciclos.

O veterinário que assessora a exploração comenta que a pessoa que se encarrega da sala de partos observou que o processo se inicia aos 2-3 dias após o nascimento e que nos animais mais velhos afectados, diminui bastante. Não parece haver resposta ao tratamento com amoxicilina injectável por parte dos animais afectados.





Primeiras análises


Dado que o veterinário crê que se pode ter produzido alguma falha vacinal, apesar da classificação de "indemne de Aujeszky" da exploração, a primeira coisa que se fez foi realizar uma análise para esta doença (ELISA) nas reprodutoras com ninhadas afectadas desde há duas semanas, com resultados negativos.

Os leitões necropsiados não apresentam lesões específicas e foram enviadas amostras de líquido cefalorraquidiano para a detecção de Streptococcus suis assim como uns hisopos para o cultivo de Haemophilus parasuis, ambos com resultados negativos.

O cultivo de hisopos vaginais de porcas com descarga vaginal deu como resultado o isolamento de Staphilococcus spp, Proteus e E. coli. Foi aplicada uma medicação na ração a 400 ppms de CTC a partir dos resultados do antibiograma que não parece dar grandes resultados.



Visita à exploração



Gestação

Na visita à exploração verifica-se que o problema de descargas vaginais afecta principalmente as porcas primíparas, com algumas porca de mais partos afectadas. As porcas estão aparentemente sãs.

O aspecto dos animais afectados é como o que figura nas fotos seguintes:


O encarregado das cobrições está convencido de que o tratamento na ração que utilizou não serviu para nada, assim como o reforço na da higiene que se está a levar a cabo (limpeza da parte traseira das porcas duas vezes por dia e a aplicação de um produto desinfectante em pó a base de superfosfatos nas porcas após a cobrição). Com efeito, comenta que há porcas que já foram cobertas três e mais vezes, apresentando descargas três ou quatro dias antes do cio. As descargas costumam ser bastante abundantes com uma cor cremosa que varia em consistência.

Devido à necessidade de aumentar o efectivo o quanto antes, mantêm-se umas quantas reprodutoras no final da engorde, num par de salas da engorda para serem cobertas assim que entrem em cio (idade da cobrição 200 dias), fazendo a estimulação do cio aí mesmo.

Necropsia-se uma das porcas nulíparas que apareceu morta esse dia, verificando-se uma torsão de colon. Foi-nos comentado que as baixas de nulíparas não têm sido frequentes até à data.


Partos:

Na observação das salas detecta-se que só nas ninhadas das porcas primíparas existem animais afectados, ainda que não em todas, e que, naquelas afectadas, não estão necessariamente todos os leitões.
O estado de saúde das porcas não parece estar afectado em nada. O aspecto das ninhadas pode ver-se nas duas fotos seguintes.


O grau de tremores varia entre os indivíduos afectados e, curiosamente, quando se movem os animais parece que se agrava o quadro. A mortalidade dos animais afectados é de 50% e costumam morrer antes da primeira semana de vida. As ninhadas afectadas costumam apresentar diarreia de aspecto amarelado que, provavelmente, é causada por E.coli. Uma questão importante é que, apesar do comentário do encarregado desta zona, aparecem leitões com tremores já no primeiro dia de nascimento.

Na necropsia de dois dos leitões mais afectados não se verificam lesões específicas.

Não se observa nenhum tipo de problema nem nas baterias nem na engorde, onde a mortalidade está em níveis normais para o histórico da exploração (3% e 4%, respectivamente). Um dado interessante é que alguns leitões nas baterias apresentam tremores quando se mexem os animais durante a visita.

Diagnóstico e Medidas tomadas


Diagnóstico

O diagnóstico é relativamente simples, nesta exploração está-se a produzir um problema de metrite nas porcas após a cobrição, conjuntamente com um problema de tremores congénito. Contudo, este diagnóstico não nos resolve nada porque se tratam de duas condições patológicas em que intervêm muitos agentes causais e muitos possíveis factores predisponíveis.

Medidas tomadas

No que se refere às metrites, os antibacterianos costumam dar resultados fracos, pelo que o tratamento deveria levar a diminuir os factores de risco.

As acções propostas foram:

Aumentar a medicação com clortetraciclina na ração numa dose mínima de 20 mg/kg/dia e injectar com oxitetraciclina LA a 20 mg/kg após a última inseminação.

Eliminar as porcas repetidas que apresentem descargas ou permitir-lhes passar um cio.

Deixar passar um cio nas nulíparas com sinais de vaginite.

Encurtar o tempo de inseminação para nulíparas.

Reforçar a higiene na sala de controle de cobrições.

No que se refere ao problema de tremores congénitos se supôs que o problema derivava de uma má adaptação das novas porcas introduzidas no efectivo reprodutor. A fim de conseguir a protecção de todas as nulíparas antes da gestação, reforçou-se a exposição das nulíparas a fezes e placentas da maternidade assim como a baixas que ocorreram durante a lactação nas ninhadas afectadas.


Evolução


A partir da aplicação das medidas mencionadas, a principios de Março, a percentagem de repetições na exploração foi-se reduzindo de uma forma gradual, com uma redução dos animais que apareciam com metrite.

A evolução da mortalidade na lactação também diminui drasticamente, ainda que cremos que o motivo não tenham sido as medidas de controle adoptadas mas sim porque a infecção apareceu em massa em todas as nulíparas e nós estivemos presentes quando já entravam os últimos animais infectados durante a gestação.

Comentários
Trata-se de uma exploração de 300 reprodutoras em ciclo fechado que se dedica à multiplicação onde apareceu um problema de metrite em porcas após a cobrição, conjuntamente com um problema de tremor congénito. Contudo, este diagnóstico não nos resolve nada porque se trata de duas condições patológicas nas que intervêm muitos agentes causais e muitos possíveis factores predisponíveis.

Linha de actuação


Metrite
Normalmente o aparecimento de metrites após a cobrição costuma acontecer em porcas multíparas (um dos factores predisponíveis é a idade da porca). Contudo, nesta exploração apresenta-se um surto epidémico de metrite que afecta as primíparas. Não é raro este tipo de problema em explorações onde se realiza um enchimento ou onde a reposição é muito alta. As porcas nulíparas, ou por adaptação imunológica, ou por fisiologia hormonal normal, apresentam uma elevada disposição para sofrer vaginites. Com efeito, a porca necropsiada, apesar de nunca ter sido coberta, apresenta vaginite: esta diferencia-se da metrite porque o volume de descarga que se produz é mínimo (em contraposição com uma endometrite), é independente da fase cíclica da porca (a metrite só apresenta fluxos no proestro o no estro), e não interfere com a gestação. Contudo, é uma causa predisponente de metrite: supõe-se que a inseminação destas porcas permite ascender esta infecção para evoluir para uma metrite.

Porcas multíparas gestantes exibindo descargas vaginais (vaginite)

À medida que aumenta a pressão de infecção da zona de gestação, maior dimensão adquire o problema (isto explicaria que, apesar da reposição ser muito intensa desde Setembro, o problema não apareça de forma clara senão 4 meses mais tarde), com efeito podemos chegar a ver a situação indicada na foto onde vemos porcas multíparas prenhas com descargas associadas a vaginites numa gestação com uma higiene muito deficiente.

¿Que passos deveríamos dar para resolver este problema?

Há que ser consciente de que o tratamento com antibacterianos costuma dar resultados fracos. Com efeito, estas infecções costumam ser mistas e de agentes inespecíficos (agentes ambientais). Haveria que tentar diminuir os factores de risco.

As acções que se propuseram nesta exploração foram:

Metrites:

Aumentar a medicação com clortetraciclina na ração a uma dose mínima de 20 mg/kg/dia. Propôs-se uma dose de 1000 ppms, ao considerar uma porcda de 130 kg (nulípara), com uma ingesta de 2,5 kgs de ração por dia.

Após a última inseminação injectaram-se as porcas com uma oxitetraciclina LA a 20 mg/kg.

Não inseminar as porcas repetidas que apresentem descargas: ou eliminá-las (multíparas) ou permitir-lhes passar um cio, para inseminá-las no cio seguinte se não têm descargas. Até 50% das porcas às que se lhes permite ciclar sem as inseminar, eliminam a infecção: é um dos problemas das inspecções de matadouro de úteros de porcas com metrite.

Não inseminar porcas nulíparas que apresentem sinais de vaginite, deixar passar outros 21 dias.

Encurtar o tempo de inseminação para nulíparas (inseminar tão depressa como se verifique o cio e 24 horas mais tarde).

Reforçar a higiene na sala de controle de cobrições.


Tremor congénito:

A definição de tremor congénito tão só indica o sinal clínico de leitões que apresentam ao nsacimento tremor das extremidades, da cabeza ou de todo o corpo. Pode afectar a todos os miembros de uma ninhada ou a alguns indivíduos e a sua severidade é variável, tanto entre diferentes ninhadas como dentro de uma ninhada.

É frequente não observar que os leitões estão afectados desde o nascimento. Este tipo de afecção caracteriza-se porque os leitões, quando estão em repouso ou dormem, não apresentam apenas tremores e, quando estão agitados, o quadro manifesta-se muito mais. É importante confirmar a natureza congénita do mesmo.

Os leitões afectados de forma leve sobrevivem e recuperam-se em 2-8 semanas. Estes tremores vão diminuindo, mas ainda se podem verificar em períodos de stress. Os animais afectados de forma aguda normalmente morrem esmagados ou de fome devido à falta de coordenação.

Foto cortesia de J. Segalés
Corte histológico de medula espinal de leitão com tremor congénito que apresenta desmielinização (vacuolização de substância branca e/ou substância cinzenta). Ao nível de todo o sistema nervoso central, especialmente da medula espinal

O aspecto ao microscópio das amostras remetidas para análise histológica costuma ser como a que apresenta a foto seguinte.

Segundo a sua etiologia os diferentes tipos de tremor congénito dividem-se em 2 grupos, principalmente, A: causa conhecida e B: causa desconhecida. O grupo A subdivide-se em 5 tipos. É importante despistar o tipo AI, dado que está associado a infecção por peste suína clássica.

Tipo AI: é causado pela infecção de porcas gestantes por algumas estirpes do virus da peste suína clássica (ou à vacinação com algumas estirpes vacinais do virus). Deve-se a uma infecção transplacentária do virus. Habitualmente este tipo de tremor congénito cursa com uma elevada mortalidade, com baixas normalmente entre 3 e 4 dias post-nascimento.

Tipo AII: é causado por um agente infeccioso ainda desconhecido, provavelmente um virus, de distribuição mundial, apesar de que a doença apareça com baixa frequência. Conseguiu-se induzir a doença experimentalmente desde os 28 dias de gestação até 14 horas antes do parto. Não costuma ser acompanhado de elevadas mortalidades. O diagnóstico deste tipo torna-se complicado porque as lesões que se observam em histopatologia são de hipomielinogénese, o que é comum a outras causas de tremores congénitos. Não existem técnicas de imunohistoquímica desenvolvidas.

Tipo AIII: deve-se a uma hipomielinogénese hereditária que afecta principalmente os machos da raça Landrace (transmite-se por um factor monogénico recessivo ligado ao sexo). As porcas portadoras têm leitões afectados independentemente do varrasco com que são inseminadas e a metade dos leitões machos são afectados.

Tipo AIV: deve-se também a uma condição genética que afecta a raça Saddleback. Deve-se a um gene autossómico recessivo (não ligado ao sexo, de forma que afecta machos e fêmeas). A sintomatologia é similar ao tipo III, ainda que costume afectar a 25% da ninhada e costuma ser mortal para os indivíduos afectados. Esta doença é progressiva.

Tipo AV: deve-se a agentes teratogénicos. Normalmente associava-se ao uso de organofosfatos na gestação em porcas entre 45 e 79 dias de gestação.

Neste caso particular, a afecção centra-se exclusivamente em porcas primíparas, afecta por igual a machos e a fêmeas.

Isto permite-nos descartar os tipos AIII e AIV, dado que os animais afectados são progénie dos que já estavam na exploração, um defeito genético por definição teria uma baixa prevalência e não se manifestaria somente em primíparas, além do mais o tipo AIII estaria ligado ao sexo, o que não sucede nesta exploração. Do mesmo modo, o tipo AV deveria associar-se à exposição dos animais a uma nova substância e deveria afectar por igual a todas as ninhadas independentemente do número de ciclo da porca. À priori não houve possibilidade de exposição a organofosfatos e não se tem conhecimento de que se tenha tratado as instalações ou aplicado um novo tratamento na exploração.

O tipo AI, deve sempre ter-se em consideração dado que está associado a uma doença de declaração obrigatória como a peste suína clássica. A exploração era rastreada regularmente para esta doença e no momento da afecção não havia declaração alguma na União Europeia de casos da doença e a mesma não se manifestava com uma letalidade tão visível nem afectava porcas multíparas (dado que, obviamente, não existe imunidade à mesma na exploração esta afecção deveria afectar todos os ciclos).

A doença de Aujeszky e a doença de Talfan também podem associar-se com tremores congénitos, ainda que a primeira devesse ter uma elevada mortalidade e deveria dar lugar a uma seroconversão nas porcas a partir das 2 semanas de sintomatologia nos leitões, o que não aconteceu.

O tipo mais provável seria o tipo AII, ainda que haveria que descartar os enterovirus do tipo Talfan (não se pôde fazer dada a falta de técnicas de diagnóstico disponíveis).


Recomendações:

Existe muito pouca informação disponível sobre o possível agente causal do tremor congénito tipo AII, existindo relatórios que o relacionam ao circovirus suíno tipo II.

Neste caso, dado que não tinha havido historicamente este problema na exploração, supôs-se que o problema derivaba de uma má adaptação das novas porcas introduzidas no efectivo reprodutor. A fim de conseguir a protecção de todas as nulíparas antes da gestação, reforçou-se a exposição das nulíparas a fezes e placentas das maternidades assim como a baixas que tiveram lugar durante a lactação nas ninhadas afectadas.

Evolução do Caso

A partir da aplicação das medidas mencionadas, em inicios de Março, a percentagem de repetições na exploração foi-se reduzindo de uma forma gradual, com uma redução dos animais que apareciam com metrite, o que permitiu retirar a medicação ao fim de um mês de aplicação das medidas.


No gráfico seguinte podemos ver como a diminuição das repetições não só aconteceu nas primíparas, mas também nas porcas de mais ciclos. Pode ser que se subestimasse o impacto das metrites nas porcas de 2 a 5 ciclos ou que estas sofressem de metrites subclínicas a partir da pressão de infecção gerada.


Uma vez, recuperado o efectivo, aos fim de trâs meses, voltou-se a iniciar a compra de reposição no exterior. Aparentemente, este facto não fez variar a situação clínica da fase de gestação e desde então, a presença de casos de metrite nesta exploração é esporádica.

A evolução da mortalidade na lactação também diminuiu drásticamente, e não precisamente pelas nossas medidas de controle (ainda que tenhamos prefrido não as comentar ao proprietário), sendo optimistas, as infecções das nulíparas teriam dado resultados em 4 meses (quando estes animais excelentemente adaptados e protegidos entrassem na maternidade). A nossa hipótese é que a infecção teve lugar em massa em todas as nulíparas e que nós estivemos presentes quando já entravam os últimos animais infectados durante a gestação. O curioso é que esta exploração não voltou a apresentar casos de tremor congénito segundo o seu proprietário.



Em qualquer caso, o facto de que estas duas patologias se apresentassem ao mesmo tempo, indicando uma deficiência de adaptação, numa exploração que estava introduzindo animais nascidos na mesma exploração (se bem que de uma forma massiva), deveria fazer-nos reflectir sobre até que ponto damos a devida importância à adaptação da reposição que nos chega de outras explorações.

Casos Clínicos

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