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Sobrecrescimento de unhas: o solo não é o único culpado

O sobrecrescimento do tecido córneo da unha, que provoca "unhas em gancho", gretas ou separação e laminite séptica secundária tem uma origem multifactorial.

4ª feira 6 Março 2019 (há 4 meses 14 dias)
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Historicamente, a literatura e a sabedoria popular tendem a sugerir que o crescimento excessivo das unhas dos porcos adultos se deve, em grande medida, à falta de desgaste quer seja devido ao confinamento e à falta de exercício ou simplesmente que um solo demasiado suave não desgasta o tecido da unha. Contudo, várias décadas de experiência e a natureza esporádica deste problema (individualmente, entre explorações e no tempo) sugere que se trata de algo mais complexo do que um simples desgaste físico. Costuma ser multifactorial. Este artigo analisa a biologia da unha e explora possíveis causas através de exemplos de casos clínicos.

Crescimento das unhas – Anatomia e fisiologia

A parte córnea das unhas principais dos suínos são compostas por queratina dura organizada numa parede e por uma sola/almofada plantar. Enquanto que nas patas dianteiras as duas unhas principais são comparáveis em tamanho, nas patas traseiras as unhas exteriores são maiores e curvadas que as internas (mediais). Portanto, a unha traseira exterior suporta mais peso. (As duas unhas rudimentares de cada pata não suportam peso, pelo que não têm uma distribuição sola/parede clara. Contudo, podem crescer excessivamente nalguns casos.)

Os estudos demonstraram que a parede das unhas das extremidades posteriores cresce aproximadamente 50% mais rápido que a das anteriores, o que poderá suportar a ideia de que o sobre-crescimento é consequência da falta de desgaste. O crescimento córneo produz-se na banda coronária (figura 1) e avança progressivamente para a zona que suporta o peso. Deste modo, qualquer interrupção ou alteração na banda coronária ou na sua função terá consequências no crescimento córneo.

Figura 1. Borda coronária [seta]. Note-se o crescimento desigual e o início do aparecimento de gretas na unha.
Figura 1. Borda coronária [seta]. Note-se o crescimento desigual e o início do aparecimento de gretas na unha.

Ainda que a conformação e a postura seja muito variável entre porcas, a posição normal das patas dianteiras é mais vertical que a das traseiras (figura 2). Contudo, este facto é muito variável. À medida que a porca envelhece, os metatarsos tendem a inclinar-se, o que altera o ângulo de contacto do pé com o solo. Isto pode estar relacionado com a incomodidade de certo tipo de solos (figuras 3 e 4) ou simplesmente ser o resultado do aumento do comprimento do tendão devido ao peso. A inclinação da extremidade posterior pode, evidentemente, reduzir o desgaste permitindo o sobre-crescimento da parte frontal das unhas, especialmente da externa (figura 5).

Figura 2. As extremidades anteriores desta porca são verticais, mas as posteriores estão inclinadas e metidas para baixo do corpo.
Figura 2. As extremidades anteriores desta porca são verticais, mas as posteriores estão inclinadas e metidas para baixo do corpo.

Figura 3. Extremidades posteriores verticais (sem angulação) numa nulípara.
Figura 3. Extremidades posteriores verticais (sem angulação) numa nulípara.

Figura 4. Metatarsos baixos na extremidade posterior de uma porca.
Figura 4. Metatarsos baixos na extremidade posterior de uma porca.

Figura 5. Fase precoce de sobre-crescimento na unha posterior externa
Figura 5. Fase precoce de sobre-crescimento na unha posterior externa

O crescimento das unhas depende muito da nutrição – tanto dos macro como dos micronutrientes. Ao se tratar de uma proteína, o seu crescimento dependerá dos níveis correctos e do balanceamento de aminoácidos, sendo os aminoácidos sulfurados, cisteína e metionina, particularmente importantes. Muitos micronutrientes têm um papel importante no crescimento da parte córnea, incluindo o zinco, a vitamina D, a biotina e o selénio. É provável que as interrupções ou as flutuações no fornecimento produzam uma deposição errática de tecido córneo na banda coronária e isto gerará unhas desiguais e gretas (ver figuras 1 e 6).

Figura 6. Patas posteriores de una cerda de segundo parto alojada al aire libre con un crecimiento excesivo y desigual de pezunas con divisiones horizontales.

Figura 6. Patas posteriores de una cerda de segundo parto alojada al aire libre con un crecimiento excesivo y desigual de pezunas con divisiones horizontales.

O veterinário também não deve esquecer o papel que as doenças vesiculares podem ter sobre o crescimento das unhas. Se o animal consegue sobreviver a um desafio assim, a alteração da borda coronária deformará a unha e, em casos extremos, provocará o seu desprendimento completo.

Devemos assinalar que a laminite provocada por acidose, bem conhecida como produtora de deformações nas unhas de vacas leiteiras, não foi definitivamente diagnosticada em suínos. (Não se demonstrou que a fermentação na parte final do intestino se assemelhe, de forma significativa, ao que sucede no rúmen em relação à indução de acidose patológica).

Alguns exemplos

Exemplo 1

Uma exploração outdoor nova de 600 porcas da Anglia Oriental, Reino Unido, teve problemas generalizados durante o primeiro ano de produção. Mais de 50% das porcas de segundo parto apresentavam sobre-crescimento e crescimento desigual das unhas e sobretudo, ainda que não exclusivamente, gretas nas mesmas (figuras 6 e 7). A excelente condição corporal que as porcas tinham tido no passado viu-se comprometida, presumivelmente devido à dificuldade para aceder ao alimento.

Figura 7. Separação da parte distal da unha posterior da porca anterior com exposição da lâmina sensível da que está debaixo.
Figura 7. Separação da parte distal da unha posterior da porca anterior com exposição da lâmina sensível da que está debaixo.

A exploração foi criada em terras de pasto e as porcas entraram em Março. A erva estava particularmente exuberante e no mês de Setembro havia muitas porcas coxas. Tinha-lhe sido distribuída uma dieta de lactação durante o tempo que tinham permanecido na exploração. Algumas desenvolveram laminite séptica – em resultado do aparecimento de gretas nas unhas e de uma infecção bacteriana secundária. Foram enviadas para o matadouro 45 porcas de segundo parto devido às lesões nas unhas e outras 12 foram eutanasidas na exploração.

Nos 2-3 anos anteriores tinham sido criadas várias explorações parecidas, com a mesma origem e sem nenhum incidente, pelo que se descartou uma origem genético.

Devido à gravidade do problema e à sua natureza única, foram levadas a cabo várias acções.

  1. Eliminação dos animais afectados.
  2. Transferência de todos os animais para um novo campo, donde se tinha recolhido recentemente trigo de inverno (ou seja, eliminou-se o acesso a pastos).
  3. Separação das dietas das porcas para fornecer uma dieta de lactação alta em energia/alta em proteína (18% PB) alternando-a com uma dieta para porcas não lactantes com baixa energia e baixa proteína (14% PB). Foram revistos e recalibrados os níveles de alimentação.
  4. Suplementação de ambas as rações com 40 g/t de uma pré-mistura de Biotina a 1%.

Interpretação

Pese a que as lesões observadas não eram típicas de uma deficiência de biotina (e até ao momento em que apareceram os problemas de unhas, a fertilidade tinha sido excelente) a suplementação de biotina foi considerada prudente.

Ainda que não se tenha analisado o pasto, pressupôs-se que ao combiná-lo com uma ingesta alta em proteínas durante a gestação, devido à estratégia de dieta única, a ingesta de proteína bruta foi excessiva e desequilibrada.

6 meses após o aparecimento do caso, após o abate de outras 80 porcas ao desmame, o problema resolveu-se e as porcas continuaram a produzir normalmente com problemas mínimos nas unhas.

Exemplo 2

Uma exploração indoor de 250 porcas em ciclo fechado com níveis modestos de produtividade começou a ter um número crescente de porcas velhas com "unhas em gancho", tanto nas extremidades anteriores como nas posteriores. O problema chegou a seu ponto crítico após se ter levado, para o matadouro, uma porca afectada, o que comportou o levantamento de um auto por motivos de bem-estar por parte dos serviços veterinários oficiais. Os casos mais graves da exploração são apresentados nas figuras 8 e 9. Na primeira são evidentes as gretas nas unhas.

Figura 8.  Unha em gancho na extremidade anterior de uma porca adulta em alojamento em grupo.
Figura 8.  Unha em gancho na extremidade anterior de uma porca adulta em alojamento em grupo.

Figura 9. Unha em gancho na extremidade posterior de uma porca velha na mesma exploração que na figura 8. Note-se também o comprimento das unhas acessórias.
Figura 9. Unha em gancho na extremidade posterior de uma porca velha na mesma exploração que na figura 8. Note-se também o comprimento das unhas acessórias.

Toda a exploração tinha palha no solo e as porcas secas eram alojadas em grupos pequenos em parques dentro da pavilhão com um corredor para retirar o esterco. A exploração tinha uns 20 anos e produzia as suas porcas de reposição através de um programa de cruzamento alternado (criss- cross). O problema não tinha sido detectado ou reportado antes do início de 2018.

Uma auditoria realizada na exploração detectou 9 porcas com um sobre-crescimento patológico das unhas, das que, pelo menos 3, foram declaradas como não aptas para serem enviadas para o matadouro como porcas de refugo, tendo sido alvo de eutanásia na própria exploração. Todas as porcas eram de quinto parto ou superior.

A empresa que fornecia o sémen para o programa de reposição argumentou que não se tratava de um problema genético.

A exploração produzia a sua própria dieta com fórmulas criadas por um nutricionista independente. Enquanto que se utilizaram 2 dietas distintas para lactação e gestação, a dieta para as porcas não lactantes formulou-se, por motivos de custo, para ter 16% PB. Aparentemente, ao aumentar a proteína total, podia-se reduzir o custo da suplementação individual de aminoácidos. (A dieta de lactação continha uma percentagem mais convencional, de 18% PB.)

Também se comentou que, ao contrário das recomendações, nalgum momento anterior se tinha modificado a dieta das porcas de substituição para reduzir custos. Sugeriu-se que a sub-alimentação das nulíparas durante a sua fase de desenvolvimento, próximo da sua primeira cobrição, teve um impacto na gordura da almofada plantar, reduzindo a sua deposição e alterando a forma de caminhar dos animais jovens. Evidentemente era demasiado tarde para investigar este sucesso, mas poderia ter coincidido com a primeira cobrição das porcas afectadas.

Como não se identificaram problemas nos animais mais jovens, considerou-se desnecessário realizar alterações importantes na sua dieta ou envolvente. Abateram-se ou eutanasiaram-se os animais afectados após o desmame da sua última ninhada e até à data não houve mais problemas.

Exemplo 3

Como revisão dos problemas em porcas confinadas (jaulas ou cintas escapulares) há que destacar que no Reino Unido este sistema foi proibido em finais dos anos 90. Antes desse momento, a maioria dos suinicultores trabalhavam com uma única dieta para todas as porcas e só se pode especular sobre se o sobre-crescimento habitual das unhas das patas posteriores poderia ser devido, não tanto ao próprio confinamento, mas pelo uso de uma única dieta e por não serem capazes de fornecer as necessidades exactas da porca nas diferentes etapas da lactação.

Conclusão

Desde a perspectiva do veterinário clínico, o crescimento excessivo das unhas das porcas representa tanto um problema de bem-estar como económico. Se bem que muitas explorações possam ter casos individuais afectados ocasionalmente – que potencialmente se podem tratar cortando as unhas–, há que considerar os surtos deste problema como um desafio. O sobre-crescimento do tecido córneo da unha, que leva a "unhas em gancho", gretas ou separação e laminite séptica secundária tem uma origem multifactorial em que podem estar envolvidos:

  • Nutrição
  • Genética
  • Ambiente e condiciones do solo
  • Exercício
  • Doenças
  • Idade

Parece evidente que a ideia tradicional de culpar a um só factor (genética, falta de desgaste...) parece ser errada.

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Casos Clínicos

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