Mortalidade nas baterias

As baterias são locais particularmente sensíveis da exploração. É importante controlar a temperatura, ventilação e humidade relativa nestas áreas

2ª feira 6 Outubro 2003 (há 14 anos 10 meses 14 dias)
gosto

Descrição da Exploração

Trata-se de uma exploração que tem um censo de 230 porcas, 600 leitões na transição e 900 porcos de engorda. É uma exploração de ciclo semi-aberto já que só se engorda metade da produção. O sistema de maneio é em bandas de duas semanas, com tudo dentro-tudo fora por salas em toda a exploração.

Os leitões desmamam-se entre os 21 e os 24 dias de vida e são alojados em grupos de 30 animais. A ração que recebem está medicada com 200ppm de Amoxicilina e 120 de Colistina.

As medidas de biosegurança são correctas:

- Está bem isolada
- (Há um) duche de passagem obrigatória pelo que os visitantes (e trabalhadores) tomam duche e mudam de roupa antes de entrar na exploração.
- Todo o perímetro da exploração está vedado e, além disso, todos os veículos passam por um arco de desinfecção antes de chegar ao estacionamento.
- As descargas de ração fazem-se desde fora da vedação.

A exploração é positiva ao PRRS, Aujeszky, Pneumonia Enzoótica e praticamente em todos os lotes aparece algum animal com sintomatologia de circovirose (PMWS).

As porcas de reposição são provenientes de uma fonte negativa de PRRS e antes de entrar na exploração passam por uma quarentena situada a uns 2 km de distância onde se confirma que são negativas ao PRRS. Às 3-4 semanas introduzem-se num local de adaptação, situado dentro da exploração mas separado do resto das porcas produtivas. Neste local aclimatam-se mediante o contacto directo com primíparas de lotes anteriores e com porcos de engorda e transição.

Aparecimento do Problema

Depois de se realizar uma erradicação de sarna, APP e PRRS no ano 2000, a produção foi crescendo chegando a desmamar 25,4 leitões/porca/ano no ano 2001. A inícios do ano 2002 a exploração reinfectou-se de PRRS pelo que a produção desceu ligeiramente (24,7 leitões/porca/ano).

Durante esse ano de 2002 houve alguns momentos em que a mortalidade dos desmames foi muito elevada mas ao se estar a estabilizar o censo e a sanidade da exploração não se lhe deu muita importância. No primeiro lote de animais que se desmamaram no ano 2003 há mais de 9% de mortalidade e então tenta-se analisar qual é o problema dos desmames.

Como se disse, a produção era boa, contudo a mortalidade nos desmames durante o ano 2002 era demasiado alta, globalmente foi de 4,9%. Neste gráfico representa-se a percentagem de mortalidade nos distintos lotes do ano 2002 segundo as baterias em que foram alojados.

  • Obviamente a mortalidade tinha uma estacionalidade bastante evidente, sendo muito mais elevada nos meses frios que nos temperados ou quentes.
  • Ao analisar cada desmame de forma individualizada podia-se ver que a mortalidade de cada desmame era bastante variável:
    -Nas baterias 1 houve uma mortalidade de 4,88% (ano 2002). Contudo nestas baterias avariou-se o aquecimento no início do ano de forma que durante os meses mais frios do ano os leitões não tiveram suficiente aporte de calor. Nos dois primeiros lotes de 2002 que se alojaram nestas baterias houve mais de 10% e 15% de mortalidade respectivamente o que representou 65% da mortalidade de todo o ano! O problema do aquecimento parece ser que se resolveu pelo que não faremos referência a estas baterias. Por outro lado estas baterias são muito velhas e as condições são muito distintas das outras duas.

    - As baterias 2 e 3 são novas, são dois módulos pré-fabricados de diferentes empresas que se instalaram no Outono do ano 2000, um ao lado do outro pelo que não há diferenças "climáticas" nem obviamente de maneio, origem ou alimentação dos animais. Durante o ano 2002 as baterias 2 tiveram 2,24% de mortalidade enquanto que as baterias 3 tiveram 5,75%; mais do dobro.


Quando se observa o gráfico de mortalidades segundo o módulo, a mortalidade nas baterias 3 é praticamente sempre superior que nas baterias 2.

Graças aos dados proporcionados pelos trabalhadores da exploração, as 132 baixas que existiram entre os dois módulos durante o ano 2002 agruparam-se em:

Causas baixas 2002 (%)
Problemas Respiratórios (PMWS, PRRS, Glasser...) 30,5
Problemas digestivos 26,7
Outros (brigas, hérnias....) 11,5
Abatidos (no final das baterias) 11,4
Enfermaria 7,3
Sintomatologia nervosa 7,1
Desmamados pequenos 5,5


Medidas Tomadas


Apesar que a ração que os leitões recebiam estar medicada (com amoxicilina e colistina) os problemas digestivos continuavam a ser uma causa importante de baixas, 26% do total. Além disso, no primeiro lote do ano 2003 que passou pelas baterias 3 houve 9,13% de baixas.

Portanto em março de 2003, coincidindo com a segunda entrada de leitões, instalaram-se uns dosificadores que permitiam acidificar a àgua. Esta medida funcionou, sobretudo se se comparavam as mortalidades do ano anterior ainda que os resultados não fossem satisfatórios.

Neste gráfico apresenta-se a percentagem de mortalidade nos três primeiros lotes de leitões que passaram pelas baterias 3 no ano 2002 e no ano 2003.


Ao verificar as causas das baixas durante este período pode-se observar que proporcionalmente as baixas causadas por problemas digestivos baixaram de forma importante.

Causas baixas 2003 (%)
Problemas digestivos
15,38
Problemas Respiratórios
65,38
Sintomatologia nervosa
7,69
Outros (brigas, pequenos, abatidos...)
11,54




Resolução do caso



Os registos de temperatura do regulador do módulo pareciam correctos mas o ambiente estava "carregado". Por este motivo e pelo aumento relativo dos problemas respiratórios, decidiu-se instalar uma sonda de medição de temperatura e humidade que realizou leituras a cada meia hora, para detectar possíveis problemas de ventilação:

- Neste gráfico apresenta-se a temperatura da sala entre o dia 10 de Abril até ao dia 14 de Abril. Pode-se ver que num só dia se produzem oscilações de mais de 4,5ºC, a seta amarela indica a variação máxima de temperatura.


- Neste segundo gráfico apresentam-se os valores de humidade relativa (%) durante os dias 10 e 11 de Abril. As oscilações de HR são também muito marcadas, durante a noite sobem até 65-70% e durante o dia podem situar-se ao redor de 50-55%.



Os valores de HR recomendáveis deveriam estar entre 60% e 80% portanto os valores parecem correctos ainda que quiçá são um pouco baixos. Contudo, a humidade do ar pode ser devida ao clima da zona ou aos próprios animais que a geram ao respirar.

Neste caso o ambiente dentro do módulo estava muito "carregado" pelo que provávelmente a humidade do ambiente era gerada principalmente pelos animais.

A finais de Maio, coincidindo com a 4ª entrada de animales neste módulo, decidiu-se programar o regulador de forma que para subir ou baixar a ventilação também se tivesse em conta a humidade relativa e não só a temperatura.



Este gráfico da evolução da HR obteve-se entre o dia 1 e 3 de Junho, e como se pode apreciar os valores de HR tinham descido de forma muito evidente relatiamente à leitura anterior.

Por outro lado, para determinar de uma forma objectiva se o ar estava carregado forma feitas medições (em distintos dias e horas) da concentração de CO2 no ambiente além de se anotar a HR que marcava a sonda. Os resultados são apresentados neste gráfico.



Como é lógico, quanto maior é a HR da sala, maiores são as concentrações de CO2. Há alguns estudos que indicam que concentrações de CO2 superiores a 2000ppm prejudicam de forma significativa a saúde dos animais.

Depois das modificações do ambiente do módulo, tinhamos que esperar para ver a evolução.


Evolução


Ao cabo de 5 meses já passaram três lotes de animais pelo módulo em questão e as alterações realizadas na ventilação parece que deram resultado. A mortalidade baixou em todos os lotes como pode apreciar-se no gráfico comparativo entre o ano 2002 e 2003. Além do mais, no último lote de animais houve 0% de baixas.


Também é certo que, como já se comentou anteriormente, a mortalidade neste módulo segue um padrão estacional muito marcado e de momento ainda não se conhecem resultados de um ano completo depois de se terem realizado as alterações. Será interessante ver o qu ocorre no lote seguinte já que as baixas temperaturas sempre supõem um desafio importante para os leitões desmamados.




Comentários
Este caso descreve as acções tomadas durante o primeiro trimestre do ano 2003 para solucionar um problema de mortalidade num desmame que ía aparecendo de forma intermitente até que chegou a consolidar-se e sopunha um problema importante dentro da exploração.

Primeiro consegui-se controlar os problemas digestivos dos leitões mediante a acidificação da água em combinação com a medicação da ração. Isto permitiu ver que a importância relativa dos problemas respiratórios tinha aumentado muito. Depois, considerou-se que a HR era um bom indicador da concentração de CO2 no módulo e modificaram-se as condições ambientais de modo que o regulador aumentava a ventilação quando a HR era demasiado elevada.

Neste caso, as medições de CO2 realizaram-se logo após se terem modificado os critérios do regulador e portanto não se obtiveram valores muito elevados. Contudo é de supôr que, no caso particular deste módulo, quando a HR oscilava entre os 65 e os 70% a concentração de CO2 devia superar com facilidade o límite de 2000 ppm a partir do qual a saúde dos animais começa a estar comprometida. Provavelmente este ambiente permanentemente carregado complicava as doenças respiratórias presentes na exploração (pneumonia enzoótica, PRRS, Glässer e sobretudo PMWS).

Frequentemente obtêm-se dados numa exploração que num momento concreto não têm muita importância ou significado. Nas primeiras fases de acompanhamento do caso tentou-se analizar quando tinham ocorrido as baixas neste módulo durante o ano 2002 e os resultados não davam muita informação.


20% das baixas produziam-se durante a primeira semana pós-desmame enquanto que na terceira semana pós-desmame produziam-se 30%. Ao observar se havia uma tendência, verificou-se que era praticamente uma linha horizontal: as baixas repartiam-se de forma uniforme durante todo o período.

Posteriormente, quando se fez o mesmo tipo de análise para os três lotes do ano 2003 obteve-se um gráfico parecido ainda que a tendência tenha mudado de forma importante.


Depois de realizar as primeiras alterações, entre as duas primeiras semanas pós-destete não se havia nem 20% de baixas, enquanto que aumentavam de forma importante as mortes a partir da terceira semana.

As melhorias no que diz respeito as doenças digestivas dos leitões, que costumam afectá-los durante a primeira semana pós-destete, provocou um aumento relativo das afecções respiratórias e um deslocamento das baixas para a segunda metade do período pós-destete.

Casos Clínicos

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