Diarreias no final da engorda

Existem distintas estirpes de Brachyspira hyodysenteriae, com distintos graus de virulência. No caso clínico descrito, a estirpe era muito patogénica..

2ª feira 7 Maio 2007 (há 11 anos 6 meses 9 dias)
gosto

Descrição da Exploração

Trata-se de uma exploração de engorda que uma empresa de produção de rações tem integrada.

• Dispõe de uns 2100 lugares totais, distribuídos em 5 pavilhões com capacidade entre 350 e 450 porcos cada um.
• A engorda enche-se com leitões procedentes de uma exploração que funciona em bandas cada 3 semanas, com um objectivo de 40 partos/ 3 semanas. Os leitões desmamam-se com 28 dias e saem da exploração com 9 semanas de vida. Cada 3 semanas entram uns 400 leitões.
• Os pavilhões têm corredor central com parques de ambos os lados, e uma capacidade para uns 18 porcos/parque.

Na altura de carregar, como é lógico, começa-se sempre a carregar pelos mais pesados do pavilhão. Muits vezes, quando ainda não se acabou de vazar o primeiro pavilhão, já se começam a carregar os maiores do segundo (têm 3 semanas menos, mas já são maiores que os pequenos e atrasados do lote anterior).

Nalgumas ocasiões passam-se uma vintena de porcos que possam ter ficado mais pequenos do pavilhão que praticamente ficou vazio para o pavilhão onde têm 3 semanas menos e onde já se começou a tirar os porcos maiores. Desta forma consegue-se vazar o primeiro pavilhão e pode-se começar a limpar e desinfectar para que entre um novo lote o quanto antes.


Aparecimento do Caso

Quando precisamente já se tinha começado a vazar um pavilhão, aparece diarreia de aspecto sanguinolento em 2 parques. Estes 2 parques estão bastante separados entre si (um entrando à esquerda e o outro no final à direita).

O aspecto da diarreia e dos animais afectados é bastante alarmante. A diarreia é bastante líquida e indubitavelmente tem sangue e inclusive muco.


Os animais afectados têm mau aspecto, estão muito apáticos, magros e alguns têm diarreia muito profusa.


Restos de diarreia com sangue nas paredes.
Porcos fracos e apáticos.

Por descargo de consciência revê-se o resto do pavilhão e não se observam outros parques afectados. Como por agora não há baixas, recolhem-se amostras de fezes de 4 porcos muito afectados para enviar ao laboratório e que confirmem as nossas suspeitas.

Enquanto se espera pelo resultado medica-se a água com 90 g / 1000 litros de lincomicina 40% e picam-se todos os porcos dos 2 parques mais afectados com tiamulina (14 dias de intervalo de segurança).

Ao fim de 7 dias recebemos a confirmação por parte do laboratório do que já nás temíamos: nas 4 amostras enviadas detecta-se Brachyspira hyodysenteriae mediante cultivo. O diagnóstico diferencial frente a ileite (Lawsonia intracellularis) dá negativo.

Ainda que já temessemos pelo aspecto da diarreia, o resultado laboratorial deixa-nos estupefactos. O tratador lembra-nos que já ocorreram episódios de diarreia com sangue desde há mais de 10 anos. Nos 4 últimos anos a origem dos animais é sempre da mesma exploração e nunca se tinha observado diarreia com sangue. No núcleo reprodutivo de origem dos porcos nunca se observou nem se observa problema algum.

As medidas de biosegurança da exploração são bastante boas. Está bastante isolada, vedada e com redes passareiras nas janelas. Dispõe de um bom balneário, mas este localiza-se dentro da exploração.


Evolução do Caso (I)

À primeira pergunta, como entrou a disenteria na exploração?, encontramos rápida resposta depois de falar um pouco com o tratador. Ainda não vamos revelar esta conversa para manter um pouco a incerteza do caso, mas como pista diremos que a chave está no “curioso” aparecimento do caso (começa em dois parques totalmente separados).

A nossa principal preocupação é que a disenteria não se propague dentro do pavilhão afectado, mas sobretudo que não se traslade aos outros pavilhões. Como que em cada pavilhão as entradas são feitas com idades distintas (e separadas 3 semanas), se se os afectassem outros pavilhões seria um problema enorme.

Evolução no primeira pavilhão afectado

Os separadores do pavilhão mostram-se muito ineficazes no caso de uma doença que se transmite pelas fezes: não chegam ao solo, deixando espaço de comunicação entre parques.


Como se pode observar na imagem, há um espaço livre sob os separadores dos parques.

Como era de esperar, a medicação mantém mais ou menos a situação sob controle, mas ao cabo de uma semana, outros parques já estão afectados (ainda que de forma não tão grave).

Continuam-se a enviar animais para o matadouro. Os que mais tardam em saír são os que se picaram com tiamulina para respeitar o intervalo de segurança. O pavilhão fica vazio aproximadamente ao fim de 2 semanas após começar o surto.

Uma vez esvaziado o pavilhão limpa-se e desinfecta-se perfeitamente para tentar reduzir ao máximo as possibilidades de reinfecção do próximo lote de porcos que vai entrar. O tratador responsável da exploração é muito meticuloso e realiza o trabalho na perfeição.

• Presta-se muita atenção a que não fiquem restos de fezes, repassando cantos, juntas das grelhas, tolvas…

• As valas limpam-se e desinfectam-se levantando as grelhas para ter melhor acesso.

• Uma vez que o pavilhão tenha ficado seco, caia-se o solo e as paredes até ao nível onde podem chegar os animais.

• O pavilhão fica em repouso 2 semanas.


Evolução no resto dos pavilhões

Desde o momento do aparecimento dos primeiros sintomas, estabelecem-se medidas para tentar que a diarreia não se transmita aos outros pavilhões.

• Para tentar minimizar a transmissão a partir do calçado, destina-se um calçado que só será utilizado para se andar fora dos pavilhões. Para entrar em cada pavilhão usam-se umas botas exclusivas para cada pavilhão em concreto (põem-se umas botas novas em cada um dos 5 pavilhões).

• Deita-se cal em pó nas entradas das pavilhões.

• O controle dos roedores na exploração já é, por si só, bastante bom, mas de todas as formas extremam-se as precauções. Os pavilhões encontram-se muito próximos entre si, mas ao menos o espaço exterior da exploração está totalmente limpo de ervas (tem gravilha) e de objectos. Este facto pode limitar o movimento de roedores entre pavilhões.

• Nos outros 4 pavilhões não se estabelece nenhum tipo de medicação nem na ração nem na água, precisamente para evitar que se mascarem os sintomas no caso de que otro pavilhão já estivesse contaminado.

Nestes outros 4 pavilhões não se observa nenhum sintoma durante, pelo menos, as 2-3 semanas posteriores ao aparecimento do surto. Contudo, enquanto passa este tempo, num dos pavilhões (onde os animais têm entre 50 e 60 kg) começa um foco de diarreia com sangue num local.


Evolução no segundo pavilhão afectado

Provavelmente nunca conheceremos a resposta relativamente a como se transmitiu a doença do primeiro pavilhão para o segundo. Contudo, a hipótese mais provável é que já estivesse ali quando se tomaram as medidas para evitar a transmissão entre pavilhões.

O período de incubação da disenteria porcina pode ser muito variável (de 2 dias a 3 meses), mas normalmente a doença costuma desenvolver-se entre os 10-14 dias depois do primeiro contacto.

Assim pois, no momento em que se viram os primeiros sintomas, os animais do primeiro pavilhão afectado já estavam infectados há mais de 2 semanas. Isto enquadra-se perfeitamente com o momento em que se introduziu a mais que provável via de contaminação (que ainda não vamos revelar).

Durante estas 2 semanas em que ainda não se tinham observado sintomas, mas os animais já estavam infectados, nem o tratador nem o veterinário tomaram medidas especiais para evitar a transmissão da doença entre pavilhões. Durante este tempo, provavelmente a doença passou para o pavilhão seguinte através do calçado contaminado.


O parque afectado é o 3º do lado esquerdo (3 e) de um pavilhão de 12 parques de comprimento.
A seguir vem outro parque e logo vêm os 2 que se deixaram como enfermaria (com poucos animais presentes).

Com a experiência do pavilhão anterior, onde a diarreia “correu;” por debaixo dos separadores, afectando quase todo o pavilhão, nesta ocasião decide-se instaurar uma espécie de barreira. Deixa-se um parque livre para tentar que a doença não evolua por toda a instalação. Este parque se logra juntando os 2 de enfermaria.

• Os parques 4e e 2e já se dão por perdidos ao se encontrarem justo ao lado do afectado.

• Os animais do 6e (enfermaria 1) mudam-se para o 5e (enfermaria 2), de forma que o 6e fique vazio, fazendo de barreira.

• Com esta actuação comprometem-se todos os parques do lado esquerdo até ao quinto, mas a intenção é evitar ou retardar ao máximo a infecção do resto dos parques (se não estiverem já infectados…).

• Também se poderia ter estabelecido a barreira no parque 5e juntando as enfermarias no 6e, mas prefere-se assegurar o "tiro", dando aos porcos do parque 5e (a só 2 parques do foco) como infectados.

Injectam-se todos os parques afectados e os que estão dos seus lados com tiamulina e também se medica a ração com tiamulina para prevenir a infecção do resto do pavilhão. Neste caso não se medica a água porque o número de parques afectados é pequeno e a medicação da água resulta muito cara para tratar menos de 5% de afectados. Considera-se que injectando os mais afectados, a medicação da ração será capaz de aguentar a situação.

As medidas para evitar a transmissão entre pavilhões mantêm-se.


Evolução do Caso (II)

A situação mantém-se dentro do esperado dado que, como já estava previsto, todos os parques do lado esquerdo até ao 5º vão estando progressivamente afectados.

Contudo, existe um certo grau de satisfação porque o tempo vai passando e a diarreia não evolui dentro do pavilhão e o que é mais importante, tampouco se observam surtos nos outros edifícios.

Sem embargo, aproximadamente ao cabo de 2-3 semanas do primeiro surto neste segundo pavilhão, de uma só vez tudo se desmorona. De um dia para o outro vários parques ficam afectados em distintos pontos do pavilhão. Inclusive observa-se diarreia nos parques da fila direita.

Curiosamente, paralelamente a estes sintomas, os animais apresentam bastante tosse e deixaram de comer.

• Poderá ser que um pequeno surto de gripe induzira a manifestação clínica de uma doença que se encontrava momentaneamente sob controle devido à medicação estabelecida.

• A tosse também coincidiu com uma época de grandes oscilações de temperatura entre o dia e a noite. O stress ambiental poderia ter afectado a resposta imunitária dos porcos.

Reviram-se as medicações na ração e água para manter sob controle a disenteria neste pavilhão e durante um tempo logrou-se evitar a transmissão aos outros pavilhões. Contudo, ao cabo de aproximadamente um mês identificou-se diarreia com sangue num parque do pavilhão dos porcos 3 semanas mais jovens…

O caso volta a complicar-se e quanto mais tempo passa, as garantias de que mais de um pavilhão se veja afectado aumentam. Os tratamentos deverão ser constantes e caros. O erro de um dia vai custar muito dinheiro…

Mas qual foi este erro? Já explicámos que de forma muito ocasional se mudavam os animais mais atrasados de um lote para o seguinte, com a finalidade de acabar de vazar o primeiro pavilhão. A exploração não dispõe de corredores de maneio entre pavilhões, pelo que estes movimentos costumam ser feitos com o próprio camião da empresa. Sem embargo, 2 semanas antes de que aparecesse o primeiro foco, a mudança foi realizada por um camião externo que habitualmente se encarrega de carregar animais para o matadouro para outras empresas. Aproveitando que vinha carregar animais, realizou a mudança de uns 30 porcos atrasados que ocuparam 2 parques do pavilhão onde estavam os porcos com menos 3 semanas de idade.

Um destes parques estava num extremo do pavilhão e no corredor direito. O outro no outro extremo e corredor esquerdo. Curiosamente estes foram exactamente os 2 parques por onde começou o surto de disenteria.

Este caso demonstra-nos que…

• Os camiões não vêm tão limpos e desinfectados do matadouro como poderíamos pensar ou que o fazem, Brachyspira hyodysenteriae é um microorganismo realmente resistente.

• À parte de resistente, é realmente contagioso, porque com tão só 5 minutos de estada no camião, no mínimo se infectaram 2 porcos… (a doença começou nos 2 parques com porcos mudados).

• As medidas de biosegurança são frequentemente passadas por alto porque “não costuma passar nada”. O problema é que quando se passa (ainda que seja de muito em muito tempo), a repercussão económica costuma ser brutal.


Comentários

Epidemiologia: Fonte de infecção

Existem distintas estirpes de Brachyspira hyodysenteriae, com distintos graus de virulência. No caso clínico descrito, a estirpe era muito patógena, apresentando os animais afectados graves sintomas clínicos. Na maioria das explorações, os surtos de disenteria que se observam hoje em dia, são muitíssimo mais virulentos do que eram antes.

O contágio da disenteria produz-se por via oro-fecal. Neste caso produziu-se ao utilizar um camião que anteriormente tinha levado animais infectados ao matadouro. Se o camião só tivesse carregado porcos para o matadouro, provavelmente não se teria passado nada. O problema foi que este camião se utilizou para mudar animais dentro da própria exploração.

A Brachyspira hyodysenteriae é um microorganismo tremendamente resistente no ambiente, sobretudo em fezes e efluente. Desconhece-se a qualidade da limpeza e desinfecção realizada no camião, mas provavelmente não podemos culpar o condutor. É impossível garantir que um camião que carregou animais portadores de disenteria, esteja 100% livre de risco de contágio ao fim de pouco tempo (ainda que com uma perfeita limpeza, desinfecção e tempo de repouso).

A culpa é do responsável dos animais e do veterinário, mas também se deve entender a situação. Custa muito dinheiro manter um pavilhão parado com 20 animales atrasados esperando para ir para o matadouro. Sabemos que misturar animais de diferentes idades é perigoso, especialmente no final da engorda. Contudo, estes animais não têm outra saída possível a não ser que se aceite que no matadouro os paguem a preço de saldo. Está claro que esta última situação teria sido a opção mais económica, mas só se pensa assim depois de aparecer algum problema.

Controle da disenteria numa exploração de ciclo fechado

O grande problema deste caso é que aparece numa engorda onde se realizam entradas de leitões procedentes da mesma origem a cada 3 semanas. A engorda trabalha tudo dentro–tudo fora por pavilhão, mas como é evidente, não o faz na exploração.

• Ao ter 5 pavilhões de uma capacidade variável (entre 350 – 450 leitões), dispõe-se de espaço para 5 lotes produtivos. Isto equivale a 15 semanas de tempo de rotação (5 lotes x 3 semanas).

• Este tempo de rotação é demasiado justo para engordar e limpar correctamente, pelo que um lote de animales (e às vezes 2) devem ser engordados noutra exploração.

Na mesma exploração crescem leitões desde as 9 semanas de vida até ao abate, pelo que despovoar a granja requer tê-la muito tempo parada.

Controlar uma doença como a disenteria numa situação como esta é complicado. Os roedores são portadores da doença (e inclusive os cães, pássaros e temporariamente as moscas), pelo que é fácil que exista transmissão constante entre pavilhões.

Poderia ser possível baixar a pressão de infecção e minimizar a expressão da doença:

• Devem-se realizar medicações de todos os animais da exploração ao mesmo tempo.

• Medidas extremas de limpeza e desinfecção de instalações entre lotes.

• Redução da pressão de infecção, reduzindo a matéria fecal presente.

• Limpeza e desinfecção de ferramentas, botas, macacos… Tudo o que entre em contacto com os animais.

• Controle de roedores e moscas.

Chegar a erradicar a disenteria sem despovoar a exploração será realmente difícil. Manter a doença sob controle custará muito dinheiro e tempo.

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