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Coxeiras em marrãs de reposição

Após duas semanas de quarentena, as marrãs começaram a coxear. O tratamento com amoxicilinas não deu resultado, apenas com doses elevadas (10 mg/kg) de macrólidos e espectinomicinas.

2ª feira 7 Dezembro 2015 (há 2 anos 11 meses 9 dias)
gosto

Introdução

Em finais do Verão de 2014 vimos muitos casos problemáticos de debilidade de patas em marrãs de reposição. Este problema apareceu em distintas explorações belgas e todas tinham a mesma história: quando se compravam as marrãs e estas chegavam à quarentena estavam clinicamente sãs. Após duas semanas de quarentena, as marrãs começaram a coxear. O tratamento com amoxicilinas não deu resultado, apenas com doses elevadas (10 mg/kg) de macrólidos e espectinomicinas.

 

Descrição da exploração

Neste caso viram-se envolvidas trâs explorações de ciclo fechado de umas 300 porcas em lotes de três semanas. A seguir descrevem-se as explorações afectadas:

Exploração 1:

Compraram-se 120 nulíparas dinamarquesas que chegaram à Bélgica com 20 kg, tendo sido alojadas numa unidade intermédia de quarentena até aos 180-240 dias, data em que foram transferidas definitivamente para a exploração. As nulíparas foram injectadas com tulatromicina à chegada. Receberam uma dieta de crescimento ad libitum e tiveram acesso permanente a àgua de bebida. Apresentavam uma boa condição corporal.

Entre 8-10 dias após a chegada, quase metade das porcas começaram a coxear de forma súbita. Só eram afectados os membros posteriores, com uma inflamação discreta nas articulações. A alteração da locomoção parecia ser acompanhada de dor.

Exploração 2:

As porcas jovens foram compradas em distintos núcleos da Dinamarca e foram transportadas directamente para a exploração. Permaneceram na quarentena durante 15 semanas. Quando tinha cerca de 9 meses foram inseminadas pela primeira vez. Recebiam uma dieta de crescimento duas vezes por dia e tinham acesso permanente a água de bebida. Semanalmente eram suplementadas com 50 g de fosfato monocálcico até ao parto.

Mais de 80% das nulíparas apresentavam inflamação articular, com vários graus de coxeira: desde uma simples elevação da pata até à posição de "cão sentado".

Exploração 3:

As nulíparas foram compradas no mesmo sitio que as da exploração 1. Receberam uma dieta de lactação ad libitum e tiveram acesso permanente a água de bebida. Nesta exploração em concreto, além das nulíparas, os porcos de engorda também coxeavam.

Miembro posterior de una nulípara

Análise

Possíveis causas de debilidade de patas em porcas de reposição:

1. Desequilibrio nutricional

  • Déficit de cálcio e fósforo na dieta de crescimento. Dado que a suplementação na Dinamarca é muito mais elevada que a utilizada na Bélgica, é possível que as marrãs tivessem um déficit brusco de Ca e P, que causasse malformações nas extremidades e coxeiras.
  • A ração das três explorações provinha de empresas distintas.
  • Infelizmente, foi impossível analisar a ração dos núcleos de origem na Dinamarca.
  • Foi analisada a ração fornecida na quarentena (tabela 1).

► Não se detectaram déficits assinaláveis.

 

Tabela 1: Resultados das análises de minerais na ração das três explorações.

  ppm Ca ppm Cu ppm Fe ppm K ppm Mg ppm Mn ppm Na ppm P ppm Zn
Ração de crescimento 1 9200 27,7 350 6610 2090 82,7 4370 4500 130
Ração de crescimento 2 9760 12,2 411 6810 2180 75,6 1970 5970 136
Ração de lactação 3 8050 12,8 306 7010 1930 88,4 1720 5110 82,8

 

  • Também se analisou a água de bebida na exploração 2 (tabela 2).

► O número de clostridios sulfito redutores e de enterococos intestinais era demasiado alto. Em consequência, recomendou-se a limpeza e desinfecção das canalizações de água.

 

Tabela 2: Resultados da análise da água de bebida durante a quarentena na exploração 2.

  Número de coliformes Número de clostridios sulfito redutores Enterococos intestinais Contagem total em placa aeróbios (22°C) Contagem total em placa aeróbios (37°C) Amoníaco Nitratos Nitritos Sulfatos Sal pH
Resultado 9 15 19 3800 2200 0,54 <2,00 0,18 76,8 205,6 7,9
Normal <100 <1 <1 <100000 <100000 <2,0 <200 <0,5 <250 <3000 4-9
Unidades Cfu/ml Cfu/20ml Cfu/100ml Cfu/ml Cfu/ml Mg/l Mg/l Mg/l Mg/l Mg/l  

 

2. Análises serológicas das nulíparas da concentração de Ca e P (tabela 3)

  • Os resultados destas análises mostram uma concentração serológica normal de Ca nas nulíparas com problemas. Contudo, a concentração de P é demasiado elevada nas três explorações, especialmente na 1 e na 3. Encontraram-se rácios Ca/P >4.
    Não é muito claro porque encontramos estes desvios. As nulíparas eram suplementadas com fosfato monocálcico que é, principalmente, uma fonte de P. É possível que se recolhessem as amostras de sangue nas porcas imediatamente após a refeição e que este facto pudesse explicar uma concentração  tão elevada de P no sangue. Outra possível causa desta proporção aberrante poderia ser uma falta de água de bebida. Contudo, as porcas de reposição tinham acesso permanente à água, com um caudal suficiente nos bebedouros, pelo que esta causa pode ser descartada.
  • A concentração de osteocalcina também era baixa no primeiro lote de porcas da exploração 1 e na exploração 3 detectaram-se valores mínimos. Valores abaixo de 15 µg/l são indicativos de uma substituição óssea inadequada ou de uma ossificação insuficiente. Isto pode ter várias causas: alterações hormonais (os estrogénios reduzem a formação de osso), excesso de leptina (redução da formação de osso), ou déficites em Ca, P, Mg e/ou vitamina D.

Além disso, o CTx, que é um marcador de mobilização óssea, era demasiado baixo em todas as explorações. Devido à suplementação extra de Ca e P, não é ilógico que o CTx diminuisse.

 

Tabela 3: Resultados das análises serológicas das nulíparas das 3 explorações.

Exploração 1 Ca (mmol/l) P (mmol/l) Osteocalcina (µg/l) CTx (µg/l)
Nulípara 1 2,21 8,93 6,70 0,10
Nulípara 2 2,74 8,60 6,70 0,10
Nulípara 3 2,67 9,22 6,70 0,10
Nulípara 4 2,65 8,98 6,70 0,10
Nulípara 5 2,79 7,42 6,70 0,10
Nulípara 6 2,13 8,11 11,90 0,10
Nulípara 7 2,75 9,98 11,90 0,10
Nulípara 8 2,86 8,92 11,90 0,10
Nulípara 9 2,64 9,51 11,90 0,10
Nulípara 10 2,75 9,84 11,90 0,10
Exploração 2        
Nulípara 1 2,77 4,18 19,7 0,10
Nulípara 2 2,88 3,90 19,7 0,10
Nulípara 3 2,65 3,45 19,7 0,10
Nulípara 4 2,63 3,82 19,7 0,10
Nulípara 5 2,79 5,35 19,7 0,10
Exploração 3        
Nulípara 1 2,24 10,41 11,90 0,10
Nulípara 2 2,54 10,88 11,90 0,10
Nulípara 3 1,59 10,55 11,90 0,10
Nulípara 4 2,50 11,90 11,90 0,10
Nulípara 5 2,60 10,32 10,60 0,10
Nulípara 6 2,30 11,03 10,60 0,10
Nulípara 7 2,62 10,65 10,60 0,10
Nulípara 8 2,56 10,23 10,60 0,10

 

Valores normais:

  • Ca: entre 1,62 e 2,85 mmol/l
  • P: entre 1,16 e 2,97 mmol/l
  • Osteocalcina: entre 11 e 22 µg/l
  • CTx; entre 0,15 e 0,75 µg/l

Miembro posterior de una nulípara

3. Necropsia das nulíparas afectadas

Como as nulíparas costumavam recuperar dos sintomas, a realização de necropsias não foi sistemática. Foram eutanasiadas duas delas para se realizar a necropsia. Ambas pesavam uns 100 kg. Realizaram-se as seguintes observações:

  • Não se detectaram anormalidades nos pulmões, coração, fígado, rins e tracto intestinal.
  • Ambas tuberosidades isquiáticas eram normais – detectaram-se lesões discretas na cartilagem das cabeças do fémur.
  • Ambos joelhos estavam cheios de fluido hemorrágico – com lesões leves na cartilagem dos côndilos.
  • As articulações carpais eram normais.
  • O aspecto externo da coluna era normal.
  • Encontraram-se lesões da cartilagem nol atlas de uma nulípara.
  • Exame histológico:
    • Tecido sinovial: 1x sem anomalias, 1x diferentes graus de hiperplasia e hipertrofia sinovial. Infiltração de células plasmáticas, macrófagos e células redondas, com tendência a formar folículos. Infiltração perivascular de células redondas: imagem de artrite infecciosa sub-aguda (E. rhusiopathiae? M. hyosynoviae?).
  • Exame bacteriológico:
    • Nas culturas das zaragatoas recolhidas na articulação do joelho, cresceu Staphylococcus sp.
    • PCR M. hyorhinis: negativo em ambas nulíparas.
    • PCR H. parasuis: negativo em ambas nulíparas.
    • PCR M. hyosynoviae: 1x positivo, 1x negativo.

 

Diagnóstico diferencial

  • Traumatismo.
  • Osteocondrite dissecante, debilidade das patas, …
  • Déficit de Ca que causa pequenas, mas dolorosas, deformações ósseas e lesões da cartilagem. Os desvios encontrados no soro eram mais de P do que de Ca, seguramente devidos à suplementação com fosfato monocálcico .
  • Infecção bacteriana; Doença de Glässer, Erisipelas, M. hyorhinis ou M. hyosynoviae. Sendo o último o mais provável, considerando a PCR positiva, as lesões histológicas e a melhoria dos sintomas clínicos após o tratamento com antibióticos.

 

Diagnóstico

A artrite por micoplasma não provoca grandes problemas clínicos na maioria das explorações. Contudo, nalgumas explorações, o M. hyosynoviae pode ser um problema recorrente para as marrãs de reposição.

As porcas podem ser portadoras do patógeno, que se encontra nas amígdalas e farínge e produzir uma excreção intermitente. Pode transmitir-se aos seus leitões, ainda que também lhes irão transmitir anticorpos maternais contra a infecção por Mycoplasma que os protegerão até às 12 semanas. Pese a que os leitões não desenvolverão sinais clínicos, a colonização do agente patogénico também é possível durante a transição.

O stress pode fazer com que o M. hyosynoviae se mobilize desde as amígdalas e penetre na corrente sanguínea. Daí chegam ao seu sítio preferido: as articulações. As nulíparas, transportadas desde o núcleo reprodutor ou da unidade intermédia, estão sujeitas a stress devido às deslocações, mas também devido ao ambiente do novo alojamento e, quiçá, também por causa das suas novas companheiras de parque. A artrite clínica demora um par de semanas para se desenvolver. O M. hyosynoviae coloniza a membrana sinovial da articulação, provocando inflamação, o que provoca dor e inchaço das extremidades.

 

Tratamento

Só o tratamento com doses elevadas (10 mg/kg) de macrólidos e espectinomicinas mostrou uma melhoria dos sintomas destas explorações.

Portanto, aconselhou-se um tratamento preventivo com lincomicina durante dez dias após a chegada. Os antibióticos necessitam penetrar no fluido articular numa concentração suficiente para ser efectiva. Além disso, recomendou uma injecção suplementar com vitaminas A, D3 e E. A vitamina D é necessária para permitir a absorção de Ca por parte do intestino. Prescreveu-se um tratamento curativo com AINEs nas nulíparas coxas.

Além do fosfato monocálcico, também se suplementou com greda para aumentar a concentração de Ca, além da de P.

As medidas preventivas puseram muito ênfase no evitar do stress: controlar a densidade dos animais, as condições de alojamento (temperatura, humidade, qualidade do ar, velocidade do ar,…), fornecer alimentação ad libitum na quarentena (em vez de duas vezes por dia),… Evidentemente, também se deviam evitar os traumatismos provocados pelos comedouros ou durante o transporte. Também se deviam controlar os desequilibrios nutricionais e as infecções virais, como o PCV2 e o PRRSv.

 

Conclusões

Este caso foi provocado por infecções de M. hyosynoviae.

Parece que as porcas eram portadoras de M. hyosynoviae nas unidades de reprodução, transmitindo o patógeno às suas ninhadas. As nulíparas, infectadas com M. hyosynoviae e provavelmente sendo portadoras na suas amígdalas, eram submetidas a stress durante o transporte para as explorações. Isto fazia com que o patógeno se movimentasse para a corrente sanguínea atingindo as articulações, onde provocava uma artrite discreta, inflamação e dor, o que fazia com que as marrãs de reposição coxeassem uma ou duas semanas após a chegada.

O tratamento com altas doses de antibióticos (macrólidos e espectinomicinas, 10mg/kg) e AINEs solucionou o problema.

Para evitar casos similares no futuro, recomendou-se o tratamento preventivo com antibióticos e vitaminas à chegada. Deverá evitar-se o stress e prevenir qualquer desequilibrio nutricional.

Inicialmente, o problema parecía afectar apenas as linhas puras, mas num estádio posterior as híbridas também se viram afectadas. Actualmente temos uma exploração que produz a sua própria reposição, sem comprar nulíparas externas, que também está afectada. Neste caso concreto, isolámos a bactéria das articulações para preparar uma auto-vacina. Até ao momento, ainda não temos resultados.

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