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Javalis (1/2) - riscos sanitários e situação actual

O contacto com javalis é mais provável em produções ao ar livre, mas alguns agentes patogénicos, como os vírus da Doença de Aujeszky ou da Peste Suína Clássica podem chegar a atingir os porcos alojados em pavilhões.
O contacto com javalis é mais provável em produções ao ar livre, mas alguns agentes patogénicos, como os vírus da Doença de Aujeszky ou da Peste Suína Clássica podem chegar a atingir os porcos alojados em pavilhões.

Este artigo descreve as principais doenças que os javalis podem transmitir ao porco domestico, a sua prevalência e vias de contágio. Também analisa o aumento da população de javalis em toda a Europa.

1) Quais são as principais doenças que os javalis podem transmitir ao porco doméstico?

Os javalis e os porcos são da mesma espécie, já que o javali é o ancestral do nosso porco doméstico. Em consequência, todos os agentes patogénicos do javali são transmissíveis ao porco, e vice-versa. Os principais problemas? Isso depende da região de que estejamos a falar. No Centro e Leste da Europa, a doença partilhada que mais problemas tem causado nas últimas décadas seja, possivelmente, a Peste Suína Clássica (PSC), ante cujo aparecimento em javalis implica a obrigação de iniciar campanhas de vacinação oral. Felizmente, estas intervenções vão tendo êxito. Mas actualmente há dois problemas ainda mais importantes: a Peste Suína Africana (PSA) e a tuberculose (TB). A primeira expande-se pelos Países Bálticos, Polónia, Rússia, Bielorrússia e Ucrânia. Mais recentemente saltou para a Roménia e para a República Checa e, previsivelmente continuará a gerar preocupação noutros países do Continente. A Tuberculose vai aparecendo em javalis e em porcos de muitos países europeus, desde o Reino Unido, à Península Ibérica, à Polónia e à França indo até à Grécia. Mas é importante insistir em que, infelizmente, porcos e javalis partilham todas as suas doenças.

O fornecimento de alimento a javalis, seja com a finalidade para caça ou para evitar danos, requere debate e avaliação.
O fornecimento de alimento a javalis, seja com a finalidade para caça ou para evitar danos, requere debate e avaliação.

2) Que prevalência têm estas doenças na população de javalis?

A prevalência depende da biologia do agente patogénico (vírus, bactéria ou parasita) causador da doença e da situação epidemiológica. Em qualquer caso, não é algo quje seja estável, mas que flutua no espaço e no tempo em função das populações de javalis e de factores ambientais tais como as características do habitat e disponibilidade e distribuição de água e alimento. Tomemos como exemplo a PSA, a TB e a triquinelose. A PSA costuma ocorrer em prevalências baixas, inferiores a 3%, sendo necessário, portanto, fazer amostragem num grande número de javalis para a detectar ou para descartar a sua presença com segurança. Por isso, dá-se especial atenção às análises de javalis encontrados mortos ou moribundos, onde a probabilidade de detectar o vírus é muito maior. O mesmo ocorre com a triquinelose, onde as prevalências são baixíssimas. Ainda assim, todos os anos se encontram casos e, dado que o seu ciclo só se encurta eliminando os cadáveres infectados, é fundamental diagnosticar cada carcaça e eliminar de forma correcta as que se encontrem parasitadas. O caso da tuberculose é distinto. Em zonas endémicas do Sudoeste da Península Ibérica podem atingir-se prevalências altíssimas, acima de 60%, que acontecem ao mesmo tempo com mortalidade dos javalis após desenvolverem lesões generalizadas.

3) Quais são as principais vias de contágio? Somente existe risco significativo de contágio para os porcos que vivem em extensivo?

Novamente, isso depende da doença. Entre javalis, como entre porcos, o contágio pode-se produzir por contacto directo, incluindo o consumo de cadáveres e restos de caça, ou de forma indirecta. A transmissão do javali para o porco costuma ser indirecta, por exemplo ao partilharem pontos de água ou comedouros. Em situações de produção ao ar livre ou com baixa biossegurança, os javalis podem sentir-se atraídos pela exploração devido à presença de porcas em cio ou pela disponibilidade de alimento fácil. Na ausência de medidas de biossegurança podem dar-se casos esporádicos de transmissão venérea, por exemplo de Brucella suis ou do vírus da Doença de Aujeszky (DA). Ainda que existam barreiras que impeçam eficazmente o contacto directo entre porcos e javalis, a transmissão ainda pode ocorrer por via aerógena (por exemplo os vírus da DA ou da PSC), ou por introdução na exploração de alimentos ou fómites contaminados (com bacilos da TB ou vírus da PSA, por exemplo).

4) Existe um aumento de todas as populações de javali europeu? Porquê e que implica?

Essa é a realidade, e é uma má notícia para a sanidade animal, bem como para o meio ambiente, para a segurança do tráfego rodoviário, para a agricultura e inclusive para a saúde pública. Uma revisão sobre o tema, estudando dados de mais de três décadas em uns 20 países europeus, concluiu que em todos eles se observa um crescimento contínuo das populações de javalis. Em Espanha, os dados que pacientemente recompila Jose Luis Garrido, da Federación de Caza, indicam que a abundância de javalis se multiplicou por dez desde os anos 1980 até à actualidade. Na última temporada de caça, 2016-2017, foram capturados mais de 300 mil javalis, o que indicaria uma população total em volta a 1 milhão destes animais. E ainda não atingimos a estabilidade, de forma que com o crescimento actual se espere que essa população se duplique até ao ano 2025. A única excepção recente é a Estónia, onde os efeitos combinados da mortalidade por PSA e da intensificação da caça como medida de controlo da PSA levaram à inverter temporariamente essa tendência. As causas deste fenómeno são várias, incluindo as alterações no uso do solo, com mais superfície de lenhosas e mais culturas de regadio e uma paulatina redução da população de caçadores, tanto em Espanha como em toda a Europa.

5) Existem planos para o controlo da população de javalis? E para monitorizar o seu estado sanitário?

Para controlar a população de javalis é fundamental o papel da caça: na Europa, este é o principal mecanismo regulador. Contudo, as populações continuam a crescer, o que indica que o esforço da caça deveria aumentar para conseguir, pelo menos, travar esse crescimento. O Dr. Oliver Keuling, um perito em javalis da Universidade de Hannover, calcula que em cada ano se deveriam retirar 65% dos javalis existentes para manter a estabilidade.

Quanto à monitorização, esta ainda não ocorre de uma forma coordenada e homogénea, ainda que seja algo cuja necessidade já se está a evidenciar e que acabará por chegar. Em relação ao porco doméstico, conhecemos a localização e o tamanho das explorações e vigiamos o seu estado sanitário. Nos javalis deveria ser parecido, monitorizando tanto a sua abundância como a sua sanidade. Contudo, enquanto a sanidade se começa a vigiar, pelo menos para algumas doenças chave como as pestes, a monitorização populacional ainda é limitada, na melhor das hipóteses, ao acompanhamento dos resultados da caça.

Javalis numa charca. O número de javalis e a sua distribuição no espaço existente depende da disponibilidade de água e de alimento.
Javalis numa charca. O número de javalis e a sua distribuição no espaço existente depende da disponibilidade de água e de alimento.

6) Há outros animais da fauna selvagem ou silvestre que gerem maior risco?

Para o porco não há maior perigo que os outros porcos, incluindo o javali. Não obstante, é evidente que alguns agentes patogénicos também podem ser partilhados com outras espécies do seu ambiente, incluindo carnívoros domésticos e silvestres, aves e, claro, os ruminantes, tanto domésticos como silvestres.

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