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Antimicrobianos em porcos, presente e perspectivas futuras

A Comissão Europeia está a verificar e a consultar como são utilizados os antimicrobianos em veterinária em sequência da publicação do seu programa de 12 pontos em 2011. Este artigo analisa o presente e o futuro do uso dos antimicrobianos na UE.

4ª feira 5 Setembro 2012 (há 7 anos 17 dias)
gosto

Introdução

O uso de antibióticos em animais considera-se necessário para tratar infecções e manter a sua saúde e, em última instância, o seu bem-estar mas, em tratando-se de animais de produção, como o porco, será que há uma dependência excessiva no seu uso para cobrir deficiências de maneio, ambiente ou bio-segurança? A percepção do público está a mudar? É oportuno rever e modificar o uso de antibióticos na produção suína?

A Comissão Europeia está a verificar e a consultar como são utilizados os antibióticos em veterinária em sequência da publicação do seu programa de 12 pontos (CE, 2011) e isto pode dar-nos uma ideia de como estão as coisas. Há uma intensa actividade política em marcha com alguns estados membros (EM) particularmente activos no controlo (Dinamarca) ou na redução do uso de antibióticos (Holanda), proibindo o uso de pré-misturas e alguns restringiram voluntariamente o uso de cefalosporinas de 3ª e 4ª geração (Dinamarca, Suécia, França) e de fluoroquinolonas (Dinamarca). O parlamento europeu pediu que se proiba o uso preventivo de antibióticos, mas não foi definido com precisão o conceito de "uso preventivo". Deve ser limitado apenas ao uso veterinário? O que é que acontece ao uso médico?

Os médicos têm muita pressão no que respeita ás resistências antimicrobianas, não só em casos como tuberculose, gonorreia, etc, mas também no que se refere ao Staphylococcus aureus resistente a meticilina (MRSA), que é particularmente comum em certas situações hospitalares e está, provavelmente, associado a um uso excessivo de antibióticos e a uma higiene deficiente nos hospitais. Não ajuda à causa veterinária o facto de que tenha sido detectado MRSA em porcos, aves de capoeira e vitelos mas, felizmente, são bastante diferentes dos que afectam humanos e a sua difusão foi limitada a pessoas relacionadas com a produção animal, sem se estender à população em geral. As bactérias produtoras de betalactamases de espectro ampliado (BLEE) como Escherichia coli e, especialmente em humanos, Klebsiella pneumoniae parece que substituiram a preocupação em relação ao MRSA. Há um alto risco de que estes genes transmitam entre E. coli via plasmidos e cheguem aos humanos por comida contaminada. Geralmente, na maioria de EM, os níveis de BLEE detectados em porcos, aves e vacúm são baixos mas, em alguns países como Espanha e especialmente em aves de capoeira, foram encontrados níveis altos (mais de 30 %) de clones resistentes de E. coli produtores de BLEE. Crê-se que poderia ser devido ao uso de ceftiofur (cefalosporinas de 3ª geração) fora das especificações de rotulagem em pintos. A Agência Europeia do Medicamento (EMA) já respondeu, mas isto não ajuda a melhorar a imagem de um uso responsável em veterinária. Felizmente, o aumento da resistência por carbapenemase observada em humanos, especialmente em K. pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, etc, estão basicamente relacionadas com clones asiáticos que entraram na Europa e não têm nenhuma relação com o uso veterinário e sim com as limitações próprias da medicina e com a globalização.

Presente

Vamos rever as 12 propostas, especialmente as relacionadas com o uso de antimicrobianos:

1. Reforçar a promoção do uso apropriado dos antibióticos em todos os Estados membros.
2. Reforçar o quadro regulamentar dos medicamentos veterinários e das rações medicamentosas.
3. Fazer recomendações sobre o uso responsável dos antibióticos em veterinária, incluindo relatórios de acompanhamento.
4. Reforçar a prevenção e o controlo da infecção em centros sanitários.
5. Introduzir a nova legislação de sanidade animal, que se centrará na prevenção de doenças e na redução do uso de antibióticos.
6. Fomentar esforços graduais sem precedentes de investigação e desenvolvimento que colaborem para que os pacientes disponham de novos antibióticos.
7. Apoiar os esforços para analisar a necessidade de novos antibióticos em veterinária.
8. Estabelecer ou reforçar os compromissos multilaterais e bilaterais pela prevenção e o controlo das resistências bacterianas em todos os sectores.
9. Reforçar os sistemas de vigilância das resistências bacterianas e do consumo de antibióticos em medicina.
10. Reforçar os sistemas de vigilância das resistências bacterianas e da administração de antibióticos em veterinária.
11. Reforçar e coordenar os esforços de investigação.
12. Pesquisa e investigação comparativa da eficácia.

Perspectivas futuras

Os Pontos 1 e 3 estão relacionados para promover o uso responsável dos antibióticos e baseiam-se na Plataforma Europeia para o Uso Responsável de Medicamentos em Animais (EPRUMA) e em organismos nacionais como o RUMA, no Reino Unido. É a única maneira na qual se poderá manter o arsenal contra as doenças infecciosas.

O Ponto 2 não está evidente nesta fase. Deve haver uma dissociação entre os veterinários que tiram proveito da venda de antibióticos e as farmacêuticas que os fornecem? Isto não é tão claro como poderia parecer. Os dinamarqueses introduziram-no recentemente mas os italianos fizeram-no nos anos noventa e ainda têm muitos problemas de resistências. A produção integrada de porcos também tem um papel importante. As companhias farmacêuticas tendem a fornecer as pré-misturas (figura 1) ás empresas de rações e suplementos, ignorando o veterinário, e as pré-misturas representam a maior parte dos antimicrobianos utilizados. A CE não se manifestou contra o uso das rações medicadas e considera que, bem regulados, são uma via valiosa para os tratamentos. Os pós orais, utilizados na ração, não são considerados uma opção adequada nem fiável. A presença de alguns resíduos antimicrobianos no moinho e a conseguinte contaminação de outras rações é provável que esteja controlada, esperemos, aos níveis existentes para os coccidioestáticos, de 1-3 % dependendo do estado de risco. Deveria ser proibida a publicidade de antibióticos aos produtores? É provável que se acabe fazendo.

Figura 1. Uso veterinário de antimicrobianos segundo a via de medicação e uso "crítico" de fármacos em 2010 no Reino Unido (VMD, 2011)

maneira administrar antimicrob

O Ponto 4 afecta principalmente a saúde humana, onde devem ser feitas melhorias, especialmente na higiene hospitalar.

O Ponto 5 é preocupante e a chave está na letra pequena. Pode ser crítico a nível da exploração. Os criadores necessitam melhorar a sua forma de produzir porcos, sem a necessidade de um suporte contínuo de antimicrobianos. A indústria dos frangos de carne será forçada a fazê-lo pela pressão dos supermercados. A biosegurança também é essencial. De todos os modos é difícil investir em novas instalações quando a economia está em pausa, como foi demonstrado com a proibição das jaulas de poedeiras na EU. Com a provável subida de preços, as margens vão ser reduzidas ainda mais, o que fará diminuir os investimentos.

Os Pontos 6 e 7 estão relacionados – os veterinários necessitan novos antibióticos? Provavelmente sim mas quem desenvolverá algo para veterinária na UE? Isso deverá depender, em grande medida, do que esteja disponível em outros EM e fazer registos de reconhecimento mútuo.

Os Pontos 9, 10, 11 e 12 estão relacionados. Considera-se que será mais controlado o uso de antimicrobianos em animais, possivelmente até ao nível do veterinário de campo. Os grandes consumidores enfrentarão um desafio, como na Dinamarca e Holanda, e talvez sejam disciplinados. É necessária mais investigação e cooperação entre médicos e veterinários para identificar o nível de transmissão entre uns e outros. Eu sou dos que pensam ser relativamente pequeno (Figura 2) mas tem que ser demonstrado adequadamente.

Figura 2. Comparação de uso humano (comunidade de Reino Unido e hospitais de Inglaterra e Gales) e animal (VMD, 2010)

uso humano-animal antimicrobianos

É necessária mais investigação para tomar melhores decisões e melhorar os actuais conhecimentos do risco. Esperemos que seja o caso e que a CE não torne a indústria suína europeia menos competitiva do que já é.

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