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Segurança no maneio do efluente

O efluente armazenado em condições muito anaeróbias contém enxofre que algumas bactérias podem utilizar em vez do oxigénio, produzindo H2S, que é tóxico para os tecidos.

2ª feira 25 Setembro 2017 (há 22 dias)

Cresci numa exploração de suínos no Iowa e a minha formação foi tanto em medicina humana e saúde ambiental como em veterinária. Após trabalhar em clínica de suínos, senti-me atraído pelo trabalho académico, onde estou há 40 anos como professor.

O primeiro caso que tive, relacionado com saúde humana, envolveu um pai e dois filhos (de 21 e 18 anos) que estavam a vazar uma vala de efluente. O pai estava a verificar porque a bomba que tinha metido na vala tinha deixado de funcionar, tendo nesse momento largado a bomba e caido à fossa. Os dois filhos saltaram para o salvar e também ficaram inconscientes. A esposa e a mãe encontraram-nos no fundo da vala. A equipa de emergência recuperou os corpos utilizando um equipamento de respiração autónomo.

A mãe e a filha estavam desoladas, pois o seu núcleo familiar tinha desaparecido numa questão de minutos. Lamentava-se: "Como é que isto foi acontecer? Por favor, investigue para se saber a causa e para evitar que se passe o mesmo com outras famílias”. Meti o equipamento de medição de gases na vala, à altura do efluente e encontrei concentrações baixas – não letais – de ácido sulfídrico (H2S), amoníaco (NH3) e metano (CH4). Quando ligámos a bomba já reparada, o nível de H2S subiu, em segundos, para 1000 ppm, ou seja, quatro vezes superior à concentração letal. Contudo, as concentrações dos outros gases só aumentaram ligeiramente.

Este foi o primeiro incidente deste tipo a ser investigado e publicado. Corria o ano 1974. Este caso levou-se a analisar como se produziam estes casos e que se poderia fazer para os prevenir. Nos 20 anos seguintes, investigámos mais de 20 incidentes deste tipo, nos que morriam produtores, trabalhadores e também porcos. Muitos profissionais, entre os que me incluo, investigaram o problema, tendo publicado numerosos artigos e dado palestras a suinicultores em todo o mundo. Pese a que a prevalência destes incidentes tenha diminuido com o tempo, ainda continua a haver risco e os gases do efluente continuam a provocar doenças e mortes. Para os prevenir, deve-se conhecer como se produzem as intoxicações e aplicar-se protocolos baseados em factos científicos.

Isto é o que sabemos sobre as causas:

  1. Estes incidentes podem-se prevenir.
  2. O H2S é, evidentemente, a causa primária destes casos súbitos de doença ou morte.
  3. O efluente líquido (suíno ou bovino) armazenado num ambiente anaeróbio (sem oxigénio) contém enxofre que algumas bactérias utilizam como substituto do oxigénio e produzem H2S.
  4. O H2S em altas concentrações (≥ 250 ppm) é um potente irritante. É tóxico para os tecidos vivos, porque detém as reacções que fornecem energia nas células tissulares. O cérebro é muito susceptível a esses efeitos tóxicos.
  5. As elevadas concentrações de H2S são mais frequentes quando o efluente se agita num espaço fechado e profundo (por exemplo, uma vala, um tanque, no interior de um pavilhão...).
  6. As pessoas expostas a concentrações elevadas de H2S podem desmaiar e deixar de respirar numa questão de segundos. Além disso, os seus pulmões podem encher-se com líquido devido à natureza irritante do gás e o H2S pode bloquear os seus glóbulos vermelhos, impedindo-os de transportar oxigénio.

  7. Quanto mais se agita o efluente, mais rapidamente sai o gás. A ventilação normal de uma exploração de engorda (inclusive com ventilação da vala) não está desenhada para manter um ambiente seguro durante a agitação e o bombeamento.
  8. Outros gases que podem estar presentes (CH4 e NH3) não provocam incidentes tóxicos súbitos. Contudo, o CH4 é inflamável e explosivo quando se encontra em concentrações elevadas. O recente aumento de casos de espuma nas valas de efluente aumentou este risco.

    Foto 2: Formação de espuma na vala de efluente
    Foto 2: Formação de espuma na vala de efluente
  9. Nem todas as valas são iguais; algumas são mais perigosas que outras. Mas não podemos prever cientificamente quais são as mais perigosas. Contudo, as concentrações elevadas de ácido sulfídrico tem-se associado a quantidades elevadas de sulfatos na água, so uso elevado de grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS), à acidez do efluente (pH bajo), ao uso de gesso nas camas (sobretudo em vacas) e a outros factores desconhecidos.

E isto é o que sabemos sobre como o prevenir:

  1. Nunca se deve estar num recinto fechado quando se agita/bombeia efluente.
  2. Assegurar que a ventilação funciona no máximo.
  3. Fechar qualquer tipo de fonte de ignição (p.e., aquecedores etc.).
  4. Assegurar que não há pessoas na direcção do vinto quando se bombeiam lagoas externas.

    Foto 3: Encontraram-se duas crianças inconscientes, de 2 e 4 anos, próximo da lagoa do efluente enquanto a bomba estava a funcionar.
    Foto 3: Encontraram-se duas crianças inconscientes, de 2 e 4 anos, próximo da lagoa do efluente enquanto a bomba estava a funcionar.
  5. Agitar ligeiramente enquanto se observa os porcos desde o exterior. Deixar de agitar se os porcos parecem inquietos ou inclusivamente perdem o conhecimento.

    Foto 4: Há que ter cuidado enquanto se agita ou bombeia. Neste caso, os trabalhadores sobreviveram, mas os porcos não.
    Foto 4: Há que ter cuidado enquanto se agita ou bombeia. Neste caso, os trabalhadores sobreviveram, mas os porcos não.
  6. Adquirir um medidor de H2S e avaliar a concentração antes e durante o bombeamento (há que se manter no exterior do edifício, utilizando uma sonda com extensão).
  7. Antes de bombear, ponha uma tira de pH num pau e meta-a dentro do efluente pelo menos a três palmos de fundura. Se é ácido (pH ≤4) há maior risco de que se libertem altas concentrações de H2S com a agitação. O pH da vala pode ser aumentado usando cal morta.
  8. Não entrar nunca numa vala sem um arnés de resgate adequado e sem um sistema de poleias que permitam o resgate em caso de necessidade. Deve sempre haver uma pessoa no exterior.
  9. Assegurar que os slats que cobrem a vala estã bem colocados e bem seguros para que não possam cair à vala.
  10. Há que estabelecer um protocolo que tenha em conta esta informação e ter a certeza de que todo o pessoal o conhece e pratica.
  11. Para mais informação:

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