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Sabemos como alimentar populações heterogéneas de suínos?

A resposta é não. Só sabemos como alimentar um animal médio de uma determinada composição genética e sexo.

4ª feira 6 Dezembro 2017 (há 5 dias)

A variabilidade é inerente a qualquer processo biológico. No entanto, o mercado da carne procura produtos homogéneos. A satisfação desta procura causa um problema na comercialização do porco vivo: preparação das cargas, cargas em vários dias, múltiplos jejuns dos animais, semanas para esvaziar uma exploração,… práticas onerosas nem sempre fáceis de quantificar. Portanto, podemos afirmar que a variabilidade que temos nas explorações tem um custo oculto.

Nos últimos anos, este problema aumentou, tanto na parte final do processo (maior procura de homogeneidade no produto acabado) como na parte inicial (a maior prolificidade das porcas causa maior dispersão no peso inicial do leitão). Portanto, se é um problema oneroso e crescente, deveríamos ser capazes de analizá-lo e propor possíveis soluções.

A primeira dificuldade é medir a variabilidade no peso vivo que temos dentro da exploração. Não é fácil dispor de bases de dados com o peso individual de todos os porcos da exploração em diferentes idades, para diferentes linhas genéticas, esquemas produtivos e estados sanitários. Uma vez que a variabilidade é conhecida, interessa-nos saber que fatores são as causas sobre as quais podemos atuar, e em que momento, para aumentar a homogeneidade ou para, pelo menos, não gerar mais variabilidade.

Abaixo encontram-se exemplos de dispersão de pesos em diferentes fases de produção. Tal como se pode ver, o desvio padrão aumenta com a idade. Ao dividi-lo pela média, vemos que o coeficiente de variação vai diminuindo (figura 1). Contudo, o intervalo de pesos aumenta consideravelmente (figura 2).

Figura 1. Evolução da variabilidade do peso, medida como o coeficiente de variação, com a idade.

Figura 1. Evolução da variabilidade do peso, medida como o coeficiente de variação, com a idade.

Figura 2. Distribuição dos animais de acordo com o peso à entrada do desmame. A diferença entre os 5% de porcos com menos peso e os 5% com maior peso é de 6kg.

Figura 2. Distribuição dos animais de acordo com o peso à entrada do desmame. A diferença entre os 5% de porcos com menos peso e os 5% com maior peso é de 6kg.

Figura 3. Distribuição dos animais em função do peso (kg) aos 159 dias. Os 6 kg de diferença entre os 5% de porcos com menos peso e os 5% com maior peso que se detetaram ao desmame (figura 2) converteram-se em 30 kg.

Figura 3. Distribuição dos animais em função do peso (kg) aos 159 dias. Os 6 kg de diferença entre os 5% de porcos com menos peso e os 5% com maior peso que se detetaram ao desmame (figura 2) converteram-se em 30 kg.

A distribuição de pesos no final da engorda é a soma de múltiplos fatores, sobre alguns dos quais o produtor não tem margem de atuação ou representam custos associados demasiado elevados. Uma parte da variabilidade é congénita, associada à linha genética materna e ao tipo de macho finalizador. A prolificidade das porcas, o baixo peso ao nascimento, a paridade, o grau de encolostramento, a capacidade de produção de leite e a duração da lactação acabam por determinar a variabilidade de pesos ao desmame. Adicionalmente, problemas de densidade nos parques, espaço de comedouro, número de bebedouros, estado sanitário, conforto ambiental, etc. podem contribuir para gerar maior variabilidade na fase de crescimento. Em estudos concretos, a variabilidade do peso ao desmame explica apenas cerca de 50% da variabilidade de peso no final, e a do peso ao nascimento apenas 10%. Portanto, isso indica que existe margem de atuação especialmente em determinados momentos (janelas de oportunidade) da vida produtiva, basicamente em (1) os primeiros dias pós-nascimento, (2) as primeiras semanas pós-desmame e (3) durante o primeiro mês de engorda.

Figura 4. Distribuição de pesos à entrada na engorda.

Figura 4. Distribuição de pesos à entrada na engorda.

Figura 5. Distribuição de pesos no final da engorda. Cerca de 35% dos porcos pesam mais de 100 kg, enquanto 10% estão abaixo dos 75 kg.

Figura 5. Distribuição de pesos no final da engorda. Cerca de 35% dos porcos pesam mais de 100 kg, enquanto 10% estão abaixo dos 75 kg.

A realidade é que em cada momento convivem na exploração porcos muito diferentes, tanto no seu peso vivo como na sua capacidade de consumo de ração (CMD) e crescimento (GMD). Por isso, são animais com enormes diferenças no custo de produção, e se pudéssemos medir veríamos que alguns deles são dificilmente viáveis do ponto de vista económico.

Figura 6. GMD nos primeiros 100 dias de engorda dependendo do peso à entrada. As diferenças de peso na entrada da engorda ampliam-se (multiplicam-se por 2). Cada kg de diferença de peso à entrada é aproximadamente equivalente a 11 g de GMD.

Figura 6. GMD nos primeiros 100 dias de engorda dependendo do peso à entrada. As diferenças de peso na entrada da engorda ampliam-se (multiplicam-se por 2). Cada kg de diferença de peso à entrada é aproximadamente equivalente a 11 g de GMD.

A figura 7 ilustra o GMD dos percentis da exploração em função do seu peso final. Se compararmos os dois percentis superiores com os dois percentis inferiores, vemos que o GMD é praticamente o dobro nos primeiros que nos segundos. Ao abate, as carcaças de animais com menor GMD são bastante mais magras que as de maior GMD. Portanto, a variabilidade intra-exploração possivelmente pode ser igual ou maior que a variabilidade média entre explorações, ou mesmo maior que as diferenças médias entre sexos e entre algumas linhas genéticas. Existem vários trabalhos que explicam como alimentar explorações separando por sexos, especialmente inteiros vs castrados, mas também machos inteiros vs fêmeas.

Figura 7. Evolução do GMD em função do peso de entrada (cada 10%). No final da engorda todos acabam tendo um GMD semelhante, embora os maiores alcancem o máximo muito mais cedo, pelo que têm menos dias de permanência.

Figura 7. Evolução do GMD em função do peso de entrada (cada 10%). No final da engorda todos acabam tendo um GMD semelhante, embora os maiores alcancem o máximo muito mais cedo, pelo que têm menos dias de permanência.

Além disso, sabemos que os requisitos médios dos porcos magros tipo Pietrain são muito diferentes de outras linhas genéticas com maior CMD, maior GMD e menor crescimento magro, tipo Duroc magro ou linhas sintéticas semelhantes. No entanto, na mesma exploração, alimentamos de forma igual os dois percentis superiores e os dois inferiores, quando é evidente que são animais com grandes diferenças no GMD, CMD e composição corporal.

Portanto, respondendo à pergunta inicial, "Sabemos como alimentar populações heterogéneas de porcos?" A resposta é "Não".

Atualmente sabemos como alimentar o animal médio de uma determinada composição genética e sexo, uma vez caracterizado o seu GMD, CMD, deposição de proteína e gordura para estimar os requisitos (rácio lisina:energia) em cada fase produtiva (modelização anterior). Para desafiar a prática habitual, poderíamos até afirmar que quanto mais ajustamos a alimentação do animal médio (alimentação em múltiplas fases com um orçamento de kg de cada ração por animal) mais contribuímos para gerar variabilidade. Para reduzir a variabilidade no peso final, é claro que a melhor estratégia seria maximizar o GMD dos percentis inferiores. No entanto, quando mudamos para a ração seguinte com um rácio inferior de lisina:energia, estes animais são os que têm menor peso, e seguramente não consumiram a quantidade prevista da ração anterior. Desta forma, podemos estar a sub-alimentar em boa parte a sua vida produtiva e, por conseguinte, limitando o seu potencial genético já de si inferior ao dos animais mais adiantados da exploração.

A solução ótima para este problema é a alimentação de precisão, amplamente divulgada, mas atualmente esta tecnologia ainda não está disponível ao nível da prática comercial, possivelmente devido à complexidade, nível tecnológico e custo de investimento. O futuro dirá se aparecerão soluções aplicáveis ao nível das explorações de produção. Entretanto, pode ser aconselhável medir a variabilidade intra-exploração que temos nos nossos sistemas, estimar o quanto seriam diferentes os programas de alimentação se pudéssemos alimentar de forma separada "adiantados" vs "atrasados" e definir estratégias para tentar implementá-los em condições comerciais, de uma forma prática do ponto de vista logístico e operativo na exploração.

Termino com uma conclusão provocativa: como não sabemos o que a variabilidade nos custa, também não sabemos o que economizaríamos se a controlássemos. Talvez tivessemos uma surpresa.

Nutrição

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