Diarreia neonatal devida a Clostridium difficile

As diarreiras neonatais causam muitos prejuizos numa exploração e podem ser causados por diversos agentes. Neste caso foi um clostridio

3ª feira 1 Junho 2004 (há 14 anos 2 meses 19 dias)
gosto

Descrição da exploração



Trata-se de uma exploração com 700 porcas com maneio em bandas semanais.

A exploração está localizada no oeste de França numa zona com pouca concentração.

Pratica-se autoreposição desde há 18 meses; realiza-se inseminação artificial com preparação de doses na própria exploração.

A produção está distribuída em dois sítios:

  • sítio 1: fase de reprodução com desmame aos 21 dias e transição (tanto dos leitões destinados à engorda como as F1).
  • Sítio 2: engorda dos machos e fêmeas que não são de substituição (situado a 2 km do sítio 1).

Situação sanitária


Ninhada heterogénea
Diarreia líquida amarelada
  • Estado geral medíocre (animais. 1,2)
  • Cavidade torácica: não há evidência de lesões (1,2)
  • Estômago com presença de pouco alimento (1) ou vazio (2)
  • Mucosa intestinal normal (1,2)
  • Edema do mesocólon importante (1,2)
  • Conteúdo do intestino grosso : líquido e amarelo esverdeado.
Edema do mesocólon

Animal 1
Animal 2
Fezes 1
Fezes 2
Fezes 3
E. coli enteropatogénica
-
-
-
-
-
Clostridium perfringens C
-
-
-
-
-
Clostridium perfringens A
-
+
NR
NR
NR
Clostridium difficile (toxinas A,B)
+
+
-
+
+
Rotavirus
-
-
NR
NR
NR

- = ausência ; + = presença em quantidade significativa ; NR = não realizado
  • PRRS: positiva

  • Actinobacillus pleuropneumoniae serovar 9-11: positiva

  • Mycoplasma hyopneumoniae: positiva
  • Aujeszky: negativa


  • Plano vacinal:

    - Aujeszky (porcas e leitões)
    - PRRS (porcas)
    - E. coli K88, K99, 987P, F41 (porcas)
    - Clostridium perfringens tipos A y C (porcas)
    - Parvovirose e Mal Rubro (porcas)
    - Rinite atrófica (porcas)
    - Mycoplasma hyopneumoniae (leitões)
    - Actinobacillus pleuropneumoniae (leitões)

    Respeitam-se os protocolos de vacinação e as vacinas encontram-se bem conservadas.

    Os resultados reprodutivos, durante o pós-desmame e a engorda, são satisfatórios.



    Aparecimento do caso

    br> O produtor decide avisar o veterinário no mês de Março ante o aparecimento, desde há várias semanas, de um problema de diarreias neonatais apesar de estar a aplicar um protocolo de vacinações muito completo.

    Alé do mais, a utilização preventiva de vários antibióticos orais (quinolonas, macrólidos) administrados às porcas durante o período próximo ao parto, não foram de nenhuma ajuda.

    A morbilidade é importante (50 a 80% das ninhadas segundo as bandas). A mortalidade é média (10 a 20% dos leitões com diarreia) ainda que os leitões apresentem, pelo contrário, um atraso importante no crescimento.

    O problema é recorrente e as diarreias aparecem sistemáticamente aos fins de semanas.


    Visita à exploração

    No seu conjunto a exploração vai perfeitamente bem e o nível de higiene é bom.

    Quarentena: As primíparas passam da engorde para uma quarentena durante 6 semanas antes de serem cíclicas. Recebem o plano de vacinação descrito anteriormente e não são submetidas a nenhum tipo de exposição. O suinicultor considera que este ponto não é necessário dado que pratica a auto-substituição.

    Gestantes : As porcas encontram-se em bom estado. Não se detecta nenhum problema.

    Maternidade: observa-se uma banda onde os partos tiveram lugar há 4 dias. As porcas não apresentam nenhum sinal patológico. Cerca de 40% dos leitões apresentan diarreia líquida e amarelada. Os leitões estão magros (perda de estado corporal de cerca de 50% em comparação com os leitões sãos). Não se tomou a temperatura rectal nos leitões doentes.

    No que diz respeito ao maneio dos leitões durante e após o parto observou-se:

    - que o suinicultor tem como costume isolar sistemáticamente os leitões durante o parto (estima que desta forma as porcas estão mais calmas).
    - uma boa prolificidade (de 12,5 a 13 NV).
    - não existe um maneio particular das lactações calostrais.

    Decide-se levar para o laboratório de análises 2 leitões ainda vivos não tratados (directamente ou indirectamente através do leite materno) assim como 3 amostras de fezes de outros animais.


    Resultados

    Resultados das autópsias




    Bacteriologia:






    Diagnóstico e medidas tomadas


    Os resultados das análises e das necrópsias vão no mesmo sentido. O importante edema no mesocólon e a presença de uma quantidade importante de toxinas A e B de Clostridium difficile na quase totalidade das amostras induzem a pensar que este é o agente etiológico principal, causante dos problemas observados.

    O diagnóstico é pois: Diarreia neonatal devida a Clostridium difficile


    Medidas de maneio

    No que diz respeito ao maneio dos partos, o veterinário desaconselha o suinicultor a continuar com o isolamento dos leitões durante o parto já que este maneio não favorece uma tomada óptima de colostro.

    No mesmo sentido, desaconselham-se também as adopções realizadas antes das 12 horas de vida e sugerem-se as lactações alternadas no caso que o número de nascidos ultrapasse a capacidade das tetas.

    A partir do quinto dia suprimem-se os cuidados com os leitões (final do período de risco) com a finalidade de limitar o risco de contaminação intra-ninhada por parte dos tratadores.

    Com o objectivo de facilitar a imunização dos leitões estabelece-se uma exposição das primíparas na quarentena 3 ou 4 vezes antes da cobrição com dejectos de porcas e leitões recolhidas nas salas de parto.

    Por último, pede-se uma limpeza profunda dos circuitos de alimentação (utilização de uma base seguida de um ácido).

    Medidas profiláticas

    Com o objectivo de estabilizar a flora digestiva das mães e para tentar ao mesmo tempo diminuir a excreção de clostridios no período próximo ao parto, decide-se distribuír uma preparação probiótica à base de leveduras e lactobacilos às porcas desde os últimos 15 dias de lactação e até 5 dias depois do parto.

    Ao não dispôr do antibiograma sobre a clostridiose encontrada, sugere-se injectar preventivamente com tiamulina (20 mg/kg PV ao primeiro dia de vida) à totalidade dos leitões nascidos.

    Medidas terapêuticas

    No caso de diarreia nos leitões, apesar da prevenção mencionada anteriormente, aconselha-se o suinicultor a tratar os leitões com tiamulina (10 mg/kg/d) durante 3 dias, permitir o acesso dos leitões a um comedouro com um re-hidratante e pulverizar os solos dos currais afectados com desinfectante (uma associação de amónios quaternários e glutaraldeído).



    Evolução do caso


    As injecções preventivas e curativas deram bons resultados. O número de leitões afectados desceu claramente depois da aplicação das distintas medidas mencionadas (morbilidade 10%).

    Da mesma maneira, os pesos no momento do desmame aumentaram quase 800 g de média.

    Seis meses depois o suinicultor decidiu, por iniciativa própria, abandonar as injecções preventivas mas seguiu com as outras medidas.

    A situação não piorou.



    Comentários

    Os problemas aparecem numa exploração com 700 mães situada no oeste de França. Detecta-se o aparecimento de diarreias neonatais apesar de estar a aplicar um protocolo de vacinações muito completo.

    As análises efectuadas dão como resultado presença de diarreia neonatal devida a Clostridium difficile.

    Desde há várias semanas, as diarreias neonatais aparecem com um problema frequente na explotação. Este caso bastante típico ilustra o que se observa em explorações que aplicam um plano profiláctico completo e que controlam perfeitamente tanto os seus rendimentos como os seus níveis de higiene.

    Apesar de tudo, pode aparecer uma patologia como a descrita neste caso. Porquê?

    Em princípio parece difícil responder a esta pergunta. Alguns elementos merecem ser destacados:
    • Podem ser incriminadas neste caso as modificações regulamentares que levaram à supressão da utilização dos antibióticos como factores de crescimento e a proibição da utilização de proteínas de origem animal como geradores de importantes perturbações na flora intestinal das mães?
    • Qual é o efeito da hiperprolificidade se não se controlam perfeitamente as lactações colostrais (relação tetos funcionais/leitões nascidos) e em consequência a transmissão da imunidade?
    • Pode haver "um excesso de higiene"?
  • De qualquer forma, este caso ilustra vários pontos:

  • A importância das análises para a consideração de todos os patógenos possíveis dado o carácter pouco específico deste tipo de clínica.
  • A necessidade absoluta da adaptação das primíparas na quarentena mediante a sequência vacinação- contaminações digestiva e respiratória. O facto de ter auto-substituição não exime esta adaptação.
  • O perfeito controle da absorção do colostro por causa de todos os seus aspectos benéficos.
  • O interesse da utilização de probióticos para a manutenção de uma flora digestiva equilibrada nas mães e para minimizar a excreção dos patógenos.

Casos Clínicos

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