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Estamos prontos para reconhecer a Peste Suína Africana (PSA) no campo?

Há uma ampla variabilidade na severidade dos sinais clínicos na PSA nos países afectados. A detecção precoce pode ser um desafio.

4ª feira 29 Maio 2019 (há 5 meses 19 dias)
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A Peste Suína Africana (PSA) é uma doença infecciosa reemergente que afecta apenas espécies suínas. É uma doença de declaração obrigatória para a OIE com sérias implicações para o comércio.

Como não existe uma vacina eficaz disponível contra a PSA, a quarentena e a eliminação são as únicas alternativas para as explorações diagnosticadas como positivas para a PSA. No caso infeliz da introdução do PSA numa exploração, a detecção precoce e a eliminação da fonte infecciosa é imperativa para evitar a disseminação do vírus para outras explorações.

Estamos preparados para detectar o vírus antes de ser demasiado tarde para evitar a sua propagação a outras explorações?

Caso clínico de PSA

Na minha experiência pessoal com a PSA na Rússia, a doença apareceu de forma sub-clínica, com progressão e transmissão lenta da doença. A exploração afectada era uma exploração de engorda com 16 salas e um total de 30.000 porcos. Houve um aumento lento da mortalidade numa sala específica da exploração. Os porcos afectados começaram a mostrar inapetência, febre e diarreia sanguinolenta. O aumento da mortalidade foi lento, mas constante, até atingir 7% das baixas num período de 10 dias após as primeiras observações da doença. Os porcos afectados não responderam ao tratamento com antibióticos injectáveis e a severidade dos sinais clínicos aumentou o suficiente para causar preocupação entre os funcionários da exploração. A presença de PSA foi confirmada posteriormente através de testes laboratoriais.

Durante este período de 10 dias, houve um movimento de futuras reprodutoras, que eram assintomáticas, de uma sala que não apresentava sinais clínicos para uma exploração de recria de reprodutoras. Estas porcas tinham sido analisadas por PCR antes da carga com um resultado negativo e não havia sinais clínicos na sala. Após a chegada à exploração de destino, os animais começaram a mostrar sinais clínicos semelhantes aos que tinham aparecido na exploração de engorda, mas com uma progressão da doença mais rápida, atingindo 10% das vítimas em apenas 3 dias. A exploração de recria deu positivo ao vírus da PSA 3 dias após a chegada das porcas procedentes da exploração de engorda inicialmente infectada.

Todos os animais da exploração infectada foram sacrificados num período de 5 semanas após a detecção da PSA. Doze das 16 salas permaneceram negativas para PSA durante essas 5 semanas e a maior mortalidade observada nas salas infectadas foi de 15%.

A minha experiência é semelhante a outros relatórios onde se reporta que a PSA pode causar sinais clínicos leves, com baixas taxas de mortalidade nas primeiras etapas da doença. No entanto, há uma ampla variabilidade na severidade dos sinais clínicos descritos nos países afectados. Há relatórios de países do sudeste asiático onde a doença se apresenta de forma aguda com altas mortalidades que alcançam 90% num curto periodo de tempo.

Apresentações da Peste Suína Africana

Dependendo da virulência da estirpe e da via de exposição, o período de incubação varia de 4 a 19 dias e a doença pode ter quatro apresentações diferentes:

  • Hiperaguda: alta mortalidade que pode alcançar até 100% dentro da primeira semana após a infecção. Esta apresentação da doença produz-se com estirpes altamente virulentas e a morte súbita é uma descoberta comum. A doença progride rapidamente e a maioria dos porcos não mostrará evidências de sinais clínicos antes de morer.
  • Aguda: é a apresentação que os veterinários esperam frequentemete ver em presença de um surto de PSA. São observadas altas mortalidades que também podem alcançar 100%, mas a doença progride mais devagar que a apresentação hiperaguda, podendo decorrer até 3 semanas para que a mortalidade chegue a 100%. Os sinais clínicos observados são evidentes e graves. De forma mais específica, podemos esperar encontrar febre, lesões cutâneas hemorrágicas e dificuldade para respirar com descargas nasais hemorrágicas antes de o animal morrer. Na necropsia podemos esperar encontrar lesões hemorrágicas em múltiplos órgãos, sendo os descritos mais frequentemente os rins, gânglios linfáticos e inchaço do baço, ainda que estas lesões não devam ser esperadas em todos os porcos infectados.
  • Subaguda: Os sinais clínicos são semelhantes aos observados na forma aguda, mas menos severos. A mortalidade pode atingir entre 30 e 70% nas primeiras 3-4 semanas após a infecção. A progressão da doença será significativamente mais lenta do que a apresentação aguda e os sinais clínicos podem não ser tão evidentes como seria de esperar.
  • Crónica: Os sinais clínicos são diversos, foram descritos falta de apetite, perda de peso, diarreia sanguinolenta, dificuldade respiratória e artrite. A mortalidade permanece abaixo de 20%, a maioria dos animais sobrevivem e tornam-se excretores do vírus por meses.

Detecção precoce de Peste Suína Africana

A detecção precoce da doença pode ser difícil devido à falta de sinais clínicos específicos para a PSA. A gravidade e a variedade de sinais clínicos irão variar dependendo da virulência da estirpe do vírus da PSA e da possível existência de outros agentes infecciosos presentes.

O diagnóstico diferencial é complicado, uma vez que os sinais clínicos e as lesões macroscópicas podem assemelhar-se aos observados em outras doenças suínas, como Mal Rubro, Salmonella, Peste Suína Clássica, PRRS altamente patogénico, PDNS ou disentería hemorrágica.

A doença pode não ser detectada por vários dias até que os sinais clínicos e o aumento da mortalidade sejam altos o suficiente para desencadear uma investigação. Além disso, as doenças existentes na exploração podem retardar o diagnóstico de PSA, uma vez que o aumento da mortalidade e os sinais clínicos observados inicialmente podem ser atribuídos a outras doenças presentes. Isto facilita a propagação do vírus para outras explorações, deslocando porcos assintomáticos infectados nas fases iniciais do surto.

Os sinais clínicos observados em casos de PSA são:

  • Febre (>40 Cº);
  • Perda de apetite e perda de peso;
  • Lesões cutâneas hemorrágicas, com mais frequências nas orelhas e nas partes distais das extremidades;
  • Diarreia com sangue;
  • Vómitos;
  • Dificuldade respiratória;
  • Secreções nasais hemorrágicas;
  • Aborto nas porcas;
  • Morte súbita.

Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença. Lesões hemorrágicas na ponta da orelha e na parte distal da pata traseira.
Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença. Lesões hemorrágicas na ponta da orelha e na parte distal da pata traseira.

Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença. Lesões hemorrágicas graves em todo o corpo
Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença. Lesões hemorrágicas graves em todo o corpo

Lesões macroscópicas encontradas habitualmente nos casos de PSA

  • Hemorragias petequiais em múltiplos órgãos, mas mais frequentemente no rim e bexiga;
  • Esplenomegalia (inchaço do baço);
  • Gânglios linfáticos hemorrágicos e inchados;
  • Pericardite com excesso de líquido pericárdico.

Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença.  Rim afectado com hemorragias petequiais.
Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença. Rim afectado com hemorragias petequiais.

Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença. Baço aumentado de tamanho.
Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença. Baço aumentado de tamanho.

Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença.  Gânglios linfáticos inchados e hemorrágicos.
Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença. Gânglios linfáticos inchados e hemorrágicos.

Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença.  Lesões hemorrágicas no intestino grosso.
Porco infectado por PSA 14 dias após a detecção da doença. Lesões hemorrágicas no intestino grosso.

Estes são os sinais clínicos mais frequentemente descritos em vários surtos em diferentes países. No entanto, nem todos os sinais clínicos estarão presentes durante o curso de um surto. Durante um surto de PSA nem todos os porcos serão infectados ao mesmo tempo, portanto, deve ser esperada variabilidade na severidade dos sinais clínicos entre animais.

Diagnóstico laboratorial

Devido a esta ampla variedade de sinais clínicos e à falta de lesiones específicas da PSA, é imperativo confiar nos testes laboratoriais para o diagnóstico. Há vários testes validados disponíveis para a detecção do vírus e de anticorpos contra a PSA. O PCR é o teste mais comum para a detecção do vírus nas primeiras etapas da doença. As amostras de eleição para a detecção do vírus são o sangue, o baço, os rins e os gânglios linfáticos. Tem sido descrita uma secreção intermitente na forma crónica da doença, portanto, é importante realizar testes sorológicos para detecção de anticorpos, além da PCR.

Nos países onde as infraestruturas laboratoriais são inexistentes e limitadas, o diagnóstico da Peste Suína Africana na fase inicial da doença pode resultar num problema, o que complica mais o diagnóstico e a sus detecção precoce.

Observações principais

  • Os sinais clínicos variam dependendo da virulência da estirpe;
  • Os sinais clínicos podem assemelhar-se aos observados em outras doenças importantes de porcos;
  • A mortalidade pode ser baixa nas primeiras 2 semanas de progressão da doença;
  • Os porcos infectados podem ser portadores assintomáticos do vírus da Peste Suína Africana;
  • Testes diagnósticos confiáveis e rápidos são fundamentais para a detecção precoce.

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