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China e a Peste Suína Africana: o que se nos depara no futuro?

A única coisa certa é que a China consumirá muito menos carne de porco.

2ª feira 29 Abril 2019 (há 5 meses 23 dias)
gosto

Nesta alturas, é possível que já tenha entrado em euforia por causa da China. A China é o maior consumidor e produtor mundial de carne de porco, por isso qualquer tropeção seu é uma oportunidade bater-nos à porta. Mas atenção, porque poderá não ser uma oportunidade a bater-nos à porta e ser o diabo a bater. Antes de contratar as escavadoras e as betoneiras, leia este artigo.

A maioria iria surpreender-se com a pouca quantidade de porco que se pode desviar para a exportação nos principais países produtores e exportadores de porco, ainda que os incentivos sejam grandes. Nos EUA exporta-se, aproximadamente, 25 % da produção total e esta quantidade não acompanha a proporção que podemos encontrar numa carcaça de porco. Ou seja, exportam-se mais umas peças do que outras. Se se começam a vender carcaças inteiras para a China (que é o que agora estão a pedir os compradores chineses), desequilibra-se o fornecimento aos grandes compradores nacionais (cadeias de supermercados, contratos militares, cadeias de restauração...).

Alguém pode crer seriamente que os supermercados da Europa, dos EUA e do Canadá, por exemplo, venham a ficar sem carne de porco, pernas ou pás, porque esta foi toda enviada para a China? Ao fim e ao cabo, supõe-se que, por causa da Peste Suína Africana, se tenham abatido na China mais porcos que os que há nos EUA e na UE.

Se se tem em conta o consumo de carne de porco na China de antes da Peste Suína Africana e se retiramos os animais supostamente eliminados devido à PSA para calcular a nova procura, o resultado será decepcionante. A existência de um mercado negro de carne de porco (proveniente de porcos infectados pela Peste Suína Africana) reduz o consumo, independentemente da inocuidade do vírus da Peste Suína Africana para os humanos. Os consumidores chineses tem prática nas alterações rápidas de fonte de proteínas, como quando mudaram da carne de frango para a de porco devido ao surto de gripe aviar. Os consumidores protegem a saúde em primeiro lugar. Para eles, palavras como zoonose soam a tecnicismo.

Os padrões sazonais de consumo de carne de porco na China mostram um aumento no Outono, Inverno e, especialmente, quando se aproxima o Ano Novo Chinês, em Fevereiro. Toda esta procura sazonal extra já terminou e estará inactiva durante vários meses. Além disso, a economia chinesa desacelerou, o que implica redução de salários, aumento do desemprego, encerramento de fábricas, redução das exportações, empréstimos hipotecários de valor superior à casa, que travam a procura, inclusive para necessidades básicas como os alimentos, onde se aceitam alternativas e substitutos mais baratos.

Além disso, a China tem reservas estratégicas congeladas de carne de porco para fazer frente a este tipo de carestia que levam a preços elevados e impopulares. Este armazenamento foi aumentando anualmente desde 2008, em parte devido ao surto devastador de PRRS do ano anterior. Esta reserva permitirá que a China compre carne de porco de forma mais estratégica.

Não tenho suficiente espaço para resumir num ápice os 3000 anos de história chinesa mas, em poucas palavras, não costumam apresentar-se como vulneráveis frente aos seus competidores. Isto deve-se a uma longa história de invasões, opressão e domínio às mãos de outras nações que deixaram um desejo indelével de nunca mais se deixarem dominar. A China esteve a promover uma diminuição do consumo de carne para reduzir a possibilidade de que os países rivais utilizem os alimentos como arma no caso de que ocorram este tipo de coisas (interrupção da produção nacional). Não devemos esperar que se sentem à mesa de negociações e comprem a qualquer preço.

É provável que a China siga a estratégia da Rússia e que reduza dramaticamente as explorações familiares, que são vistas como reservatórios de Peste Suína Africana e a fonte de futuras calamidades. Devemos acreditar que todo o consumo das famílias que antes produziam os seus próprios porcos (ainda representam 50% ou mais de toda a produção e cerca de 40% de toda a procura) se transferirá para o supermercado ou para os "mercados húmidos" (se este tipo de mercados sobreviver)?

A taxa de urbanização da China ainda está em 58% (Banco Mundial, 2017), muito abaixo da associada aos países desenvolvidos. O tamanho e a escala do problema da Peste Suína Africana na China, juntamente com os seus efeitos, especialmente como será finalmente resolvido e prevenido o problema no futuro, poderá levar a uma alteração permanente nos padrões de consumo de proteína do povo chinês e os grandes triunfadores poderão ser as aves e os bovinos.

O aumento da procura nos EUA de entremeadas para armazenamento frigorífico, de pernas para processar na Semana Santa e a agora crescente demanda de entrecosto para churrascadas em Abril, marcam o início da subida sazonal, que aumentará substancialmente por parte da oferta um pouco lá mais para a frente, quando chegarem menos animais com pouco peso ao matadouro.

Enquanto analisas esta informação, junta-lhe esta outra: nos Estados Unidos, a última das grandes unidades de transformação de carne de porco abriu no início de Março. Os porcos que se produziram para serem abatidos nessa unidade (para arranque, até 10000 cabeças diárias para depois chegar as 12000) estavam mais do que prontos e à espera. Um mês depois, a unidade continua a aumentar a capacidade e em meados do Verão ajudará a impulsionar a temporada.

Isto é o que hoje sabemos com certeza: os chineses vão comer muito menos carne de porco.

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